O agravamento do contexto internacional, marcado pela guerra dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, veio acentuar uma realidade que Portugal tem vindo a adiar. A ausência de uma economia forte e preparada para enfrentar choques externos. As consequências são imediatas, aumento da inflação, subida dos preços da energia e um abrandamento claro do crescimento económico.O Banco de Portugal veio confirmar esse cenário. As previsões de crescimento para 2026 foram revistas em baixa de 2,3% para 1,8%. Uma redução significativa de meio ponto percentual que demonstra, mais uma vez, a vulnerabilidade da economia portuguesa. Num país estruturalmente dependente do exterior, qualquer instabilidade internacional tem um impacto direto e profundo.A inflação continua a ser o maior fator de pressão sobre as famílias. O aumento dos preços dos bens energéticos, impulsionado pela tensão geopolítica, terá efeitos em cadeia no custo de vida. Transportes, produção e bens essenciais tornam-se mais caros, agravando o esforço diário de quem trabalha e vê o seu rendimento cada vez mais limitado.Perante este cenário, o Governo responde com medidas de navegação à vista imediata, sobretudo no setor dos combustíveis. No entanto, estas respostas são aquém do necessário. Não enfrentam o problema estrutural, uma carga fiscal elevada e persistente, limitando-se a mitigar, de forma temporária, os efeitos de uma política que continua a penalizar o consumo e a produção.É neste ponto que surge a maior contradição das contas públicas.Portugal terminou 2025 com um excedente orçamental de 0,7% do PIB, acima do previsto. Um resultado apresentado como sinal de sucesso, mas que importa analisar com rigor. A receita fiscal cresceu 6,7%, o que significa que o Estado arrecadou mais porque os portugueses pagaram mais impostos. Não houve uma transformação económica que sustentasse este resultado. Houve, sim, uma maior pressão fiscal sobre famílias e empresas.Esta aparente solidez orçamental assenta, assim, numa base artificial. Não resulta de crescimento económico sustentável, mas de uma estratégia que depende excessivamente da carga fiscal. Ao mesmo tempo que o Estado apresenta as suas contas disfarçadas de falta de investimento, os portugueses também enfrentam um aumento do custo de vida e uma perda contínua de poder de compra.E se o presente já levanta dúvidas, o futuro traz ainda mais incerteza.O próprio Governo já admite a possibilidade de um défice em 2026. Entre os fatores apontados estão o impacto do contexto internacional, o aumento da despesa com defesa, os encargos associados ao PRR e a pressão da inflação. Ou seja, o excedente registado não elimina a fragilidade estrutural, apenas a disfarça temporariamente.Portugal continua preso a um modelo económico que privilegia o curto prazo. Arrecada-se mais hoje, sem garantir sustentabilidade amanhã. Adiam-se reformas, mantém-se a pressão fiscal e transfere-se o esforço para quem trabalha.A realidade é cada vez mais evidente. Os portugueses pagam impostos a mais para sustentar um Estado que continua a não dar resposta proporcional e insuficiente. E enquanto não houver coragem política para alterar este rumo, qualquer crescimento será sempre limitado e qualquer estabilidade, meramente ilusória.