A Civilização Persa é tão antiga que há 2500 anos andava em guerra com as Cidades-Estado Gregas. Mas a chegada do Islão, no século VII, foi tão avassaladora, que a dado momento o idioma árabe, cavalgando ao lado da nova religião, pareceu ameaçar a velha língua persa, de raiz indo-europeia e, até certo ponto, a própria matriz cultural.Quem já visitou Teerão viu certamente a estátua de Ferdusi, que viveu há mil anos, o homem que com a sua obra O livro dos Reis, resgatou o persa, reduzindo tanto quanto possível a influência do árabe. Até foram acrescentadas letras ao alfabeto trazido da Península Arábica. Os iranianos, orgulhosos da sua cultura plurimilenar, dão muito valor a Ferdosi. Concordam merecer bem a tal estátua, construída ainda no tempo do xá, mantida pelos ayatollahs, e que parece não ter sido atingida pela guerra que Estados Unidos e Israel fazem desde 28 de fevereiro à República Islâmica do Irão. Pelo menos, não há notícias de danos causados pelas bombas lançadas nas últimas semanas sobre Teerão.Não precisamos, porém, remontar mil anos para encontrar sinais da conflitualidade entre os mundos persa e árabe nesse choque das línguas, muito simbólico, se pensarmos que o árabe é o idioma do Alcorão. Nem 500 anos, se preferirmos dar ênfase, nessa rivalidade, ao papel do xiismo imposto como religião oficial pela dinastia safávida no século XVI e que, até hoje, faz do Irão o grande colosso do ramo minoritário do Islão, aquele que é partidário de que ao profeta Maomé tivesse sucedido o seu primo e genro Ali e, assim, depois a descendência via a filha Fátima.Embora com populações xiitas, sobretudo no Iraque, no Líbano e no Bahrein, a grande maioria do mundo árabe é sunita. Segue a tradição, aceitando que, a seguir ao profeta, o seu companheiro de luta, Abu Bakr, um dos primeiros muçulmanos, fosse eleito como califa.Desde o início da atual guerra que os países árabes, nomeadamente as monarquias do Golfo Pérsico (Arábico, dirão estas), estão a ser atacados pelo Irão, que as faz pagar pelas alianças estabelecidas, no passado, com o Iraque de Saddam Hussein e, agora, com os Estados Unidos. De início, parecia que os alvos eram as bases onde estão instaladas as tropas americanas, mas seguiram-se mísseis e drones contra aeroportos, instalações energéticas, por vezes hotéis e zonas residenciais. Emirados Árabes Unidos, Kowait, Qatar, Bahrein, Arábia Saudita têm sido atacados, com Omã, país tradicionalmente mediador (e ibadita, um pequeno ramo do Islão), a ser mais poupado. Mas o maior dos danos infligido aos países árabes é o bloqueio do Estreito de Ormuz, que impede a exportação de 20% do petróleo e gás natural do mundo. A isso se soma a tentativa de destruição da imagem gradualmente construída de uma terra cosmopolita, centro financeiro e atração turística, que países como os Emirados Árabes Unidos, o Qatar e, mais recentemente, a Arábia Saudita procuraram criar, a pensar na era pós-petróleo.As grandes companhias aéreas do Golfo, símbolo do sucesso da estratégia de cosmopolitismo, enfrentam agora um enorme desafio, esperando que a guerra acabe depressa, e que tudo volte à normalidade (?) de uma tensão permanente, mas dissimulada, de conflitos regionais localizados, mas não de guerra aberta entre americanos e israelitas e iranianos.Atacar os vizinhos, tal como bloquear o Estreito de Ormuz, pode ter sido uma estratégia iraniana eficaz em termos de complicar a ação americana, criando um impacto regional e global que cria muitas pressões sobre Donald Trump. O presidente americano hesita agora sobre dar a guerra por terminada ou não, mas se o fizer deixa muito em aberto, nomeadamente o futuro do Médio Oriente. E se Israel pode sair em posição vantajosa deste conflito, pois o Irão mesmo sobrevivendo o regime está mais fraco, já as monarquias do Golfo perceberam que estão à mercê de um inimigo que as vê como agentes dos interesses americanos e que não hesitará em desafiar reis, emires e sultões.Porém, talvez tenha sido esse o maior erro a médio prazo do regime iraniano: ter criado nos vizinhos árabes a convicção de que a derrota total do Irão é necessária, pelo que fazem pressão sobre Trump nesse sentido, mesmo em prejuízo do interesse imediato numa paz (ou cessar-fogo) que permitisse retomar a exportação de petróleo e de gás natural.Não está mesmo fora de hipótese uma retaliação ao Irão por parte dos Emirados Árabes Unidos, o país do Golfo mais atacado, e de outros, se os ataques prosseguirem. E as compras em armamento nos últimos anos mostram que têm, em teoria, forte capacidade militar.Mesmo a estratégia de pressão árabe sobre o Conselho de Segurança da ONU, cuja presidência mensal cabe ao Bahrein, para autorizar o uso da força contra o Irão para abrir o Estreito de Ormuz, mostra que ainda há cautelas, seja para não sofrer mais destruição vinda do Irão, seja para não serem vistos como parceiros de Israel na guerra. Ao mesmo tempo há relatos de pressão sobre os Estados Unidos para levarem o trabalho até ao fim no que diz respeito ao Irão, seja a eliminação do programa nuclear, seja o fim do regime, seja, no mínimo, um enfraquecimento do tradicional rival de modo a que este, cujos 90 milhões de habitantes são superiores à população somada dos seis países do Conselho de Cooperação do Golfo, deixe de constituir uma ameaça por um longo período.