Flávio com “todes”

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"Tá todo o mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição. Gostaria de contar com todas, todos, todes, todys e todXs”, escreveu um pré-candidato à Presidência da República do Brasil em 2026.

Qual? O esquerdista Lula da Silva? Não. Alguém do PSOL, partido equivalente ao Bloco de Esquerda português? Não. O autor daquela publicação nas redes sociais foi Flávio Bolsonaro, filho do radical de direita Jair Bolsonaro, irmão dos radicais de direita Eduardo, Carlos e Renan Bolsonaro e enteado da radical de direita Michelle Bolsonaro.

O uso de linguagem neutra, que irrita todos - e não todes - os bolsonaristas, é a mais recente tentativa do senador de se aproximar do centro, condição essencial para se ganhar uma votação, em que cerca de um terço do eleitorado balança entre o centro-esquerda de Lula e a extrema-direita de Bolsonaro.

Antes de Flávio, o candidato natural do bolsonarismo era Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo que, às segundas-feiras, dizia que estava disposto a trabalhar com o líder do governo federal Lula e, às quartas, citava Martin Luther King, mas às terças mandava quem reclamasse das 57 mortes de inocentes em dois meses de operações policiais paulistas “fazer queixa na ONU ou no raio que o parta” e, às quintas, escrevia “Make America Great Once Again” na rede social de Donald Trump.

“Eu sou um Bolsonaro diferente”, repete, porém, o candidato Flávio, “mais centrado, mais conhecedor da política, que quer pacificar o país”, garante.

Mas o próprio, antes de ser investido pelo pai como candidato e de se ter travestido de comedido, dizia que o próximo presidente deverá “usar a força”, caso o Supremo negue um indulto presidencial para tirar Bolsonaro da cadeia e sugeria que Trump lançaria bombas atómicas no Brasil, caso uma amnistia não fosse aprovada.

Perguntado, já como pré-candidato, se tinha nomes para um eventual governo, sugeriu para o Ministério dos Negócios Estrangeiros o irmão, Eduardo, o amigo de Steve Bannon, fã do AI-5, o decreto da ditadura militar que instaurou a censura e a tortura, que equiparou professores de esquerda a traficantes de drogas, que espalhou notícias falsas sobre vacinação, que era, segundo delações, um dos principais instigadores do golpe de Estado perpetrado pelo pai.

“É mais fácil achar o Boitatá [serpente de fogo que protege as florestas no folclore indígena] do que um bolsonarista moderado”, comparou o analista político Thomas Traumann na emissora GloboNews. “Essa espécie de bolsonarista de açaime é uma impossibilidade lógica: não existe, assim como não existe um nazismo light ou uma ala moderada do Ku Klux Klan”, opinou o cientista político João Filho no site The Intercept.

Como dizia Abraham Lincoln na célebre frase proferida muito antes de Flávio nascer: “Pode enganar-se todas as pessoas por algum tempo, pode enganar-se toda a gente por todo o tempo, mas não se pode enganar todos por todo o tempo” - ou, no caso, “todes”.

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