Figura do Dia: Sérgio Godinho está em guerra com o tempo

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Sérgio Godinho voltou a cantar em duas grandes salas, este domingo, 15 de fevereiro, no Coliseu do Porto, na sexta-feira, dia 14, no Campo Pequeno, em Lisboa.

Ouvi-o, aplaudi-o, celebrei-o. E celebrei o que na minha vida é memória do que me fez chegar aqui: a descoberta da poesia, o espanto de me perceber nas suas letras, as lágrimas quando nos dias fundos sabia que hoje ou amanhã poderia ser o primeiro dia da minha vida, a partilha com amigos em noites em que a coragem até se poderia beber de um copo vazio, o nascimento de uma consciência política feita de uma força invisível que se traz nos braços e não nos deixa obedecer ou desistir.

Sérgio está cansado, o tempo tenta provocá-lo, quer que desista, mas o poeta, o nosso maior trovador, resiste-lhe e mantém-se de pé, mesmo quando, por vezes, pede uma cadeira para se sentar um bocadinho.

Sérgio Godinho
Sérgio GodinhoReinaldo Rodrigues

Estive na sala onde cantou com um conjunto notável de músicos - tão bonito ver António Rafael, dos Mão Morta, a tocar para ele… como se estivessem apenas os dois a ensaiar a vida, a deles e a nossa.

Sérgio continua a ser futuro. Tocou estes dois dias e baralhou-me por completo. Escolheu canções de que me tinha esquecido, mudou o alinhamento e nos temas mais conhecidos alterou os arranjos, mudou as roupas às palavras.

Tem 80 anos, de vez em quando senta-se ou pede amparo para subir uma escada, mas dentro de si continua indomável e jovem. A fazer o que lhe apetece, a baralhar e dar de novo, a não se acomodar ao que é fácil e previsível. Para o Sérgio é sempre o primeiro dia.

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