1. As semifinaisNas duas semifinais do Festival da Canção, enquanto as luzes do estúdio tentavam simular grandiosidade e as câmaras faziam o possível para evitar ângulos comprometidos, o verdadeiro país reunia-se onde hoje se decide o destino da pátria: no teclado. Não houve barricadas, mas houve exclamações múltiplas. Não houve cravos, mas houve emojis de náusea. E, como sempre, houve especialistas — muitos — especialistas em música, em figurinos, em geopolítica eurovisiva e até em teologia papal aplicada à votação. Começou cedo o velório. Um espectador anunciou que faltavam “poucos centímetros” para o festival ser enterrado definitivamente. Outro rebatizou o evento como “Festival do Lixão 2026”, num exercício de criatividade involuntária. A produção foi descrita como “low cost”, o cenário como “lata de sardinhas”, a dicção como espécie em vias de extinção. Houve quem evocasse a decadência moral do Ocidente a partir de um refrão mal projetado. E, no entanto, ninguém mudou de canal.A crítica vinha sempre acompanhada de uma memória dourada. “Quem viu o festival e quem o vê agora.” Essa entidade mítica — o verdadeiro festival — nunca desafinou, nunca errou na cenografia, nunca escolheu mal. É curioso como o passado canta sempre afinado. E, claro, a voz dos organizadores a dizerem: “Depois de 2017 é que é!”A RTP foi promovida a vilã clássica. Acusada de amadorismo, de falta de visão, de conspirar com júris insondáveis, de manter ao leme organizadores “que cheiram a mofo”. A televisão pública, madrasta cultural, foi julgada na praça digital com a severidade de quem paga contribuição audiovisual e exige, no mínimo, redenção estética.2. Primeira semifinal: a mão que se levantaNo meio da tempestade verbal, formou-se algo raro na fauna portuguesa: consenso. O nome repetia-se com a persistência de um refrão bem ensaiado: André Amaro. “Só o André.”“O único que quer ir à Eurovisão.”“Rumo à vitória.”“Precisa de melhor staging.”“Foi prejudicado.” Portugal pode divergir sobre impostos, futebol e receitas de bacalhau. Mas naquela noite encontrou uma mão comum. Dá-me a Tua Mão deixou de ser apenas canção para se tornar quase programa político: num mar de desilusões, alguém estendia o braço. E o povo respondia como numa romaria eletrónica, levantando “gostos”, como velas votivas.Claro que unanimidade absoluta seria milagre. Houve defensores de Dinis Mota — com recomendações urgentes de novo figurino —, partidários de Evaya, nostálgicos de Chuva e Jurei, revolucionários do Sprint. E depois os existencialistas: Nenhuma. Zero. “Tudo uma desgraça.” Estes não votam, mas testemunham o colapso civilizacional. A palavra “vergonha” pairou como nuvem baixa. Portugal teme muitas coisas, mas poucas tanto quanto passar vergonha lá fora. A Eurovisão não é apenas um festival: é um espelho continental onde receamos ver refletida a nossa pequenez ampliada em LED.3. Segunda semifinal: o querer e o figurinoSe a primeira semifinal teve a sua mão estendida, a segunda trouxe o verbo mais exigente da língua portuguesa: querer.Surgiu, no fim, a Canção do Querer, saída da escrita de Cristina Branco, uma das vozes maiores do fado contemporâneo. Houve quem a considerasse a peça mais bem construída a passar pelo palco: estrutura sólida, melodia com intenção, palavra com peso. Num tempo em que muitas canções parecem nascer já cansadas, ali havia música — música mesmo.A interpretação de João Ribeiro foi descrita como serena; o arranjo jazzístico, apropriado. Mas em Portugal o ouvido nunca vem sozinho: traz sempre o olhar pela mão.E foi aí que começou o segundo ato da combustão.“Cringe ao vivo”, escreveu alguém, antecipando o desastre televisivo europeu. Outro lamentou que o grupo descontraído das redes sociais — roupa confortável, canto em roda, autenticidade quase rural — tivesse surgido no palco com a solenidade de cerimónia catequética. “Vestidinhos para a primeira comunhão”, decretou um comentador, convocando o Santíssimo para a análise estética.Entre o “Portugal dos Pequenitos” e o GIF do pão com azeite, a metáfora rural ganhou asas. Chamaram-lhes azeiteiros, chamaram-lhes provincianos, chamaram-lhes tentativa falhada de grandeza. E, no entanto, houve quem travasse o exagero: não gostar é legítimo; desrespeitar já não. Cinco vozes afinadas, lembrou alguém, são mais raras do que cinco comentários ponderados. E houve o violino, bem metido, a dar uma leitura clássica ao Cante.Entre a autenticidade rural e a solenidade ensaiada, o palco transformou-se em campo de batalha estética. Os Bandidos do Cante, com a sua canção Rosa, dividiram o país menos pela solidez vocal — raramente posta em causa, mas a precisar de um tenor para fazer de Alto — e mais pela encenação escolhida para a defender.O grupo que nas redes sociais surge descontraído, de roupa confortável e canto em roda, apareceu em palco envolto numa formalidade que muitos consideraram deslocada: “vestidinhos de primeira comunhão”, “Portugal dos Pequenitos”, “azeiteiros”, escreveram alguns, entre a ironia fácil e o excesso verbal. Outros lembraram que cinco vozes afinadas e um património coral enraizado não merecem caricatura ligeira. No centro do debate não estava apenas a Rosa, mas a eterna questão de como vestir a tradição sem a transformar em fantasia, sobretudo quando o horizonte é o palco da Eurovisão, onde quase nenhuns querem ir por causa da participação de Israel.A frase mais certeira da noite surgiu quase por acidente: “Para uma boa representação, é preciso querer.” A ironia é deliciosa — numa Canção do Querer, discute-se precisamente a intensidade da vontade. Querem eles ir? Queremos nós que vão? Queremos ganhar ou apenas não passar vergonha? O querer é verbo exigente; conjuga-se com responsabilidade.Houve ainda espaço para nostalgia estratégica. A atuação de Edmundo Inácio foi apontada como prova de que até as ditas canções festivaleiras de antigamente, quando bem interpretadas, fazem melhor figura do que certas modernidades mal resolvidas. Talvez o problema não seja o género, mas a convicção.4. O país que comentaNas duas noites, repetiu-se o mesmo fenómeno: os que viram, os que não viram, mas opinam, os que ameaçam boicote, os que apelam à moderação. A democracia musical portuguesa tornou-se exercício de aritmética moral: júri mais público, vontade individual mais dever coletivo. Ganha-se o festival ou ganha-se a viagem? Representa-se Portugal ou representa-se a estação pública?No fundo, as semifinais revelaram menos uma crise de talento e mais uma crise de encenação. A música pode existir — e por vezes existe —, mas o palco exige narrativa. E entre autenticidade e caricatura há um território perigoso onde a intenção se transforma.Portugal é assim: exige excelência internacional, mas discute com fervor a posição de uma rosa na lapela. Quer tradição, mas com LED. Pede autenticidade, mas com enquadramento cinematográfico. Reclama modernidade, mas sente saudades de um passado que talvez nunca tenha sido tão perfeito quanto recorda.No fim das contas, o verdadeiro espetáculo não esteve apenas no palco, mas na plateia invisível que escreve. Um país inteiro transformado em júri popular, onde cada cidadão é crítico musical, cenógrafo e diplomata europeu de sofá. Até eu, a vê-los escrever também escrevo a sentir todas as partes.Entre a indignação e a fé, entre o sarcasmo e o aplauso, entre o “acabem com isto” e o “rumo à vitória”, Portugal pode não saber escolher uma canção sem drama, mas sabe, como poucos, cantar a sua própria insatisfação em uníssono, e fazê-lo em alta-definição.