Lisboa vive, cada vez mais, uma profunda crise de identidade. O turismo de massas e o crescente investimento estrangeiro no mercado imobiliário são fenómenos que têm acentuado de forma drástica o processo de gentrificação dos bairros centrais da cidade, onde é cada vez mais difícil encontrar comércio tradicional e habitantes locais.Lisboa continua a ser uma cidade de inúmeros encantos, mas, para quem nasceu cá ou para quem cá vive há largos anos, é impossível não experienciar todos os dias as mudanças estruturais na vivência da cidade. O equilíbrio que, em tempos, permitia a quem nos visitava usufruir em pleno da cidade ou nela investir sem colocar em causa a qualidade de vida de quem a habita, há muito que desapareceu.Na passada semana visitei o Castelo de São Jorge. No caminho deparei-me com ruas e cenários de tal forma transfigurados que, apesar de saber onde me encontrava, me fizeram sentir completamente deslocado numa zona da cidade que conheço tão bem, mas que já não reconheço. Dezenas de tuk-tuks parados em cima de passeios ou em segunda fila, amontoados de pessoas a aguardar um sinal verde para atravessarem a estrada, comércio outrora tradicional agora totalmente irreconhecível e vários outros traços que parecem tornar o centro da cidade numa outra Lisboa despida da sua essência e daquilo que, verdadeiramente, sempre a caracterizou. Senti-me um estranho na minha própria cidade.Será (já) este um fenómeno transversal ou podemos ainda encontrar em Lisboa bairros onde nos sentimos em casa?Nem tudo são más notícias. Ainda é possível encontrar pontos da cidade onde se mantém o espírito de comunidade e o estilo de vida que todos reconhecemos. Ao chegar a casa e numa volta pelo meu bairro, consigo perceber que, apesar das trotinetas e bicicletas abandonadas nos passeios e dos candeeiros com luzes fundidas há meses (exemplos de uma falta de cuidado que me incomoda muito), ainda é possível identificar várias particularidades que nos remetem para uma Lisboa familiar, mas também multicultural. No meu bairro ainda permanecem abertas lojas que têm mais de meio século, que convivem de forma harmoniosa com a mercearia do sr. que veio do Bangladesh em busca de uma vida melhor. Encontro vizinhos, que aqui vivem há anos, em conversas animadas num dos cafés mais cosmopolitas do bairro, negócio familiar do simpático casal parisiense. Os mais velhos ainda se reúnem para jogar à bisca nas mesas e bancos do jardim.Será então a gentrificação um fenómeno exclusivo do centro da cidade ou estarão todos os bairros em perigo?Esperemos que não. São precisamente estas características pitorescas que cativam quem a visita, este lado informal e familiar que faz com que todos se sintam bem recebidos, e é uma tremenda falta de visão do poder político não preservar esta identidade. O turismo e o investimento na cidade são certamente aspetos muito positivos, mas são necessárias regras que permitam manter a balança equilibrada.É fundamental tomar medidas para estancar este processo de gentrificação, permitir às pessoas manter as lojas abertas regulando as rendas, controlar o número de licenças para AL, promover a construção de habitação acessível para que possamos todos continuar a viver na cidade, ou então Lisboa sucumbirá a esta pressão de que tem sido alvo. Quanto ao meu bairro, não tenho dúvidas: felizmente aqui ainda não há tuk-tuks.