Falsas acusações, manipulação e afastamento parental: a coragem de continuar

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Há pais e mães que vivem uma das experiências mais devastadoras que alguém pode atravessar: serem injustamente afastados dos seus filhos através de acusações falsas, narrativas distorcidas e processos judiciais intermináveis onde a criança é manipulada, pressionada ou sugestionada a rejeitar um dos progenitores. É uma violência silenciosa, muitas vezes invisível para quem está de fora, mas profundamente destrutiva para quem a vive por dentro.

O impacto emocional é real: exaustão, tristeza profunda, ansiedade, sensação de impotência, medo de perder a ligação com o filho e, em muitos casos, a tentação de desistir - não por falta de amor, mas porque o sofrimento se torna quase insuportável. Mas é precisamente nestes momentos que importa afirmar, com clareza e firmeza, que não devem desistir.

Quando um progenitor é injustamente afastado, a criança não deixa de amar essa figura - apenas deixa de se sentir livre para o demonstrar. A rejeição não é espontânea, nem tampouco uma escolha, mas sim um sintoma do contexto, da pressão, do conflito de lealdade e do medo de desagradar ao progenitor com quem se encontra aliada.

Desistir, por mais compreensível que pareça, confirma aos olhos da criança a narrativa que lhe foi imposta: “O meu pai/mãe não lutou por mim.” Persistir, mesmo quando não há contacto, é uma forma de dizer à criança que ela continua a ter um lugar seguro, estável e disponível à sua espera.

Sabemos que este tipo de processos, baseados em falsas acusações, podem demorar anos e anos. No entanto, em muitos casos (não em todos, infelizmente), a consistência, a serenidade e a persistência tendem a fazer emergir aquilo que é real e verdadeiro. Não desistir permite, assim, que a verdade tenha espaço para se afirmar. E mesmo quando o afastamento é prolongado, a investigação e a prática clínica mostram que, por vezes, as relações podem ser reconstruídas.

É importante que estes pais e mães encontrem âncoras internas que os ajudem a não desistir. Pensar que “o meu filho precisa de mim, mesmo que hoje não consiga dizê-lo” é uma delas. Lembrar que estão a lutar pelo direito da criança a ter ambos os pais na sua vida. E reconhecer que a sua presença consistente (mesmo que invisível) é a maior prova de amor que podem oferecer. A criança pode não compreender agora, mas compreenderá mais tarde quem esteve lá, quem se manteve firme e quem a instrumentalizou.

Desistir pode, em certos momentos, parecer a única forma de aliviar um sofrimento que já se tornou demasiado pesado. Quando tudo dói, quando o processo parece não ter fim e quando a injustiça se acumula, é natural que se pense: “Não aguento mais.” Mas essa desistência, por mais compreensível que seja, não protege a criança; pelo contrário, deixa-a ainda mais exposta, mais vulnerável e mais sozinha dentro de uma narrativa que não escolheu.

Persistir, mesmo cansado e magoado, é um ato profundo de amor e de responsabilidade. É a forma mais silenciosa e mais poderosa de dizer ao filho que ele continua a ter um lugar seguro no mundo. É afirmar, com gestos e não apenas com palavras: “Estou aqui. Sempre estive. E nunca deixarei de estar.”

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