Em Portugal há uma doença discreta, mas fatal, que tem passado despercebida durante décadas. É uma doença rara, mas ao contrário da maioria das doenças raras não é hereditária, não tem de aparecer na infância e não é despistada pelo teste do pezinho feito à nascença, essa intervenção que tem salvado a vida e a saúde a tantos portugueses. É uma falência de órgão, desconhecida dos cidadãos, pouco lembrado pela generalidade dos médicos e quase invisível para as autoridades públicas. Todos conhecem a falência renal e os tratamentos de hemodiálise, a falência do fígado, do coração ou dos pulmões, tantas vezes salvas com tratamentos complexos ou com transplantações que substituem o órgão em falência. Mas este assassino discreto, a Falência Intestinal Crónica, é muito pouco conhecido.Na verdade, o intestino também pode deixar de funcionar. Quem já foi submetido a uma cirurgia abdominal sabe que pode ficar uns dias incapaz de se alimentar porque o intestino está parado. Mas se não for por uns dias, se o intestino se mantiver incapaz de garantir o aporte da nutrição indispensável durante meses, anos, toda a vida? O cidadão perde peso, tecidos, saúde, entra em desnutrição e, sem apoio, morre literalmente de fome.A isto se chama Falência Intestinal Crónica, situação crónica em que o intestino é incapaz de absorver os nutrientes mínimos para manter a saúde, a vida e, nas crianças, o normal desenvolvimento.Na maioria dos casos, a Falência Intestinal Crónica ocorre depois de uma cirurgia. Para salvar a vida a um doente, o cirurgião retira a maioria do intestino atingido por uma trombose, um cancro, uma inflamação maior. Fica demasiado curto, incapaz de digerir e absorver os nutrientes mínimos. Noutros casos o intestino deixa de se mover, como uma “paragem” que nunca termina. Noutros ainda, deixa simplesmente de absorver nutrientes e o alimento que é ingerido é eliminado sem qualquer proveito.E ao contrário da maioria das doenças raras, hereditárias e infantis, a Falência Intestinal Crónica ocorre em qualquer pessoa, em qualquer idade, desde o recém-nascido ao grande idoso.Mas estes cidadãos não estão condenados à morte. É possível substituir a função intestinal, administrando os nutrientes diretamente na circulação, ultrapassando a necessidade de absorção. A este tratamento se chama Nutrição Parentérica e é possível fazê-la na casa de cada doente durante muito tempo, anos, toda a vida.Cada doente pode aprender a cuidar da sua Nutrição Parentérica Domiciliária e ter uma vida plena, estudar, trabalhar, constituir uma família, sair com os amigos, passar férias, viajar. Mas sem isto, morre. E na verdade, deveríamos ter um Portugal algumas centenas de adultos, mas temos apenas escassas dezenas a fazer este tratamento.Para esta forma de nutrição, para salvar estas vidas, os doentes necessitam ser acompanhado por uma Equipa Multidisciplinar de Falência Intestinal, com médicos, enfermeiros, farmacêuticos e nutricionistas, com formação em Nutrição Clínica e experiência com Falência Intestinal Crónica. Estas equipas existem, quer para crianças, bem organizadas em serviços e hospitais pediátricos, quer para adultos.Tenho tido a felicidade de trabalhar na Equipa Multidisciplinar de Falência Intestinal do Hospital Garcia de Orta uma das mais experientes e dedicadas, que tem conseguido responder a doentes adultos de toda a cidade e Área Metropolitana de Lisboa.Há mais equipas sólidas, organizadas e experientes, e não posso deixar de salientar as da cidade do Porto. Contudo, os doentes adultos estão agora a sobreviver mais e melhor e em breve teremos números de cidadãos com Falência Intestinal Crónica que nos permitirão comparar com o resto da Europa.Ter mais doentes significa que estamos a proporcionar a estes cidadãos os recursos de saúde a que têm direito. Mas também resulta em maior necessidade de profissionais e recursos dedicados. É indispensável que as equipas e os centros experientes sejam reconhecidos como Centros de Referência e que sejam dotadas dos recursos necessários para acompanhar estes doentes, sobretudo os mais complexos e frágeis.Temos equipas e centros prontos e funcionantes. Falta o reconhecimento social e oficial.