Já aqui escrevi que a Portaria 194 de Setembro de 2014, publicada em Diário da República, assinada pelo ministro Paulo Macedo, que consagrava a existência dos Centros de Referência, foi a reforma estrutural mais importante do sistema de Saúde, desde a criação do SNS. E porquê? Porque pela primeira vez, no que diz respeito à qualidade dos serviços médicos prestados aos doentes, se tomava uma posição clara. A época de todos os hospitais, de todas as ULS, em qualquer parte do País, poderem oferecer aos seus munícipes cuidados médicos de qualidade não faz sentido. Para doenças graves ou muito complexas, para já não falar das raras, a possibilidade de reunir equipas multidisciplinares competentes, que possam ter acesso a casuísticas que garantam experiência e capacidade formativa, não é compatível com a dispersão da oferta.Tal como a governação clínica, a maneira multidisciplinar de funcionamento, não é compatível com decisões individuais, fora da lógica de equipas fortemente hierarquizadas, com lideranças fortes. Discutir ou comentar Saúde não é para todos. Exige formação específica, exige literacia médica, para já não falar da vantagem de um profundo conhecimento do terreno.Uma das provas de que o nosso SNS está longe de ser um caos, é porque é nele e apenas nele que, para certas doenças graves, raras ou muito complexas, se encontra resposta eficaz. Por isso, a organização em Centros de Referência, desde que tenha uma eficácia prática, aumenta a oferta de qualidade do nosso sistema de Saúde.Tenho sido algumas vezes (demasiadas?), crítico da posição da Ordem dos Médicos em relação a esta reforma estrutural do SNS. Uma posição que tem primado pelo silêncio, diria mesmo por um ostracismo indiferente. Ora, neste jornal há apenas dez dias, o Bastonário da Ordem dos Médicos (OM), fez publicar um artigo de opinião, com o título de “O pilar estrutural do SNS”, que acabou com esse silêncio. Com essa posição, que eu subscrevo e saúdo, veio prestar um serviço fantástico a todos os doentes portugueses. Ter o apoio explícito, diria total, a esta reforma estrutural do nosso sistema de Saúde é fundamental. Ter finalmente a OM e o governo (este ou qualquer outro) sintonizados na implementação dos Centros de Referência, é um grande passo em frente. Um passo gigante na exigência da qualidade.Parabéns Carlos Cortes. Para a Comissão Nacional para os Centros de Referência, o apoio público e explícito da OM, tal como o apoio do Ministério da Saúde, (com a revisão urgente da portaria) são a garantia de que vamos em frente ao serviço dos nossos doentes. PS - Defendo há muito uma medida objectiva, que podia ajudar significativamente a falta de médicos especialistas no SNS. Essa medida é simples, e nunca a vi discutida pelos partidos que nos representam na Assembleia da República. Mas antes de a voltar a referir vou dar-vos o exemplo do que se passou comigo.Aos 30 anos, num concurso público a que concorreram 84 cirurgiões para 12 vagas de especialista dos então Hospitais Civis de Lisboa (HCL), fiquei em 2.º lugar e fiquei especialista de Cirurgia Geral do quadro dos HCL. Estava eu capacitado para me tornar autónomo, para fazer cirurgias complexas, para não precisar de ser tutelado? Não, não estava. Embora já especialista, precisei ainda de continuar a aprender com os mais experientes e a obedecer aos meus mestres.Foi decisivo para a minha progressão continuar no SNS e o SNS beneficiou da minha força de trabalho. Não fui obrigado a continuar, fi-lo porque se abandonasse nunca podia ter alcançado níveis de competência que me permitissem tratar doenças mais graves e difíceis.Os jovens especialistas beneficiam em continuar mais alguns anos em regimes de trabalho tutelado, para se poderem diferenciar. E aqui chegamos à tal medida de que vos quero falar, a obrigatoriedade dos jovens especialistas, de qualquer especialidade adquirida obrigatoriamente no SNS, terem de ficar pelo menos mais dois anos no SNS, antes de poderem ter outras opções, como seja irem para os privados ou imigrar. Devemos isso aos portugueses que, com os seus impostos, pagaram a nossa formação e que, depois, merecem o retorno cívico e ético da nossa parte.Esta medida é benéfica para o aumento da competência dos recém-especialistas e é simultaneamente útil para o SNS, que pode continuar a contar com esses recursos humanos tão necessários.Tornei-me especialista sem nunca ter feito uma cirurgia complexa do fígado, das vias biliares, ou do pâncreas. E se tenho abandonado o SNS imediatamente depois de me ter tornado especialista, nunca teria feito uma transplantação de órgãos.Percebem agora porque é fundamental ficar mais uns anos no SNS para sermos competentes? Do que estamos à espera para, em colaboração com a Ordem dos Médicos, a legislação ser alterada? Do que estão à espera os partidos políticos para se pronunciarem?Os doentes portugueses não podem continuar a acreditar que, para tratar doenças graves, raras ou complexas, qualquer médico especialista serve, tal como qualquer hospital serve. Eu, só muito depois de me ter tornado especialista e de ter continuado a ser tutelado pelos meus mestres, pude adquirir competências que nunca teria alcançado se tenho abandonado o SNS. Os nossos doentes merecem respeito, merecem que lhes possa ser garantida, para tratar as suas doenças, a qualidade máxima possível.Obrigar os jovens especialistas a ficarem, pelo menos, mais dois anos nos serviços do SNS que os formaram é um “dois em um”. Fundamental para garantir qualidade médica no futuro e absolutamente decisivo para garantir recursos humanos no SNS. Fui claro? Escreve com a antiga ortografia