Falácias e riscos das guerras ditas “limpas”

Luís Valença Pinto

General. Presidente do EuroDefense-Portugal

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Pelas piores razões estão hoje muito presentes e no topo da atualidade as guerras ditas “limpas”. Assim chamadas porque há a convicção de que minimizam baixas, limitando-as a quem esteja nos alvos atacados e também porque podem ser conduzidas à distância, dispensando o recurso, muito mais sensível, a boots on the ground.

Esta forma de agir explora a sofisticação tecnológica dos meios existentes. O que justifica que se deva entender que veio para ficar, na justa medida em que a tecnologia não é suscetível de ser “desinventada”.

Mas uma coisa é isso, outra é não identificar as falácias e riscos que comporta. Por um lado, para melhor compreender esta forma de conduzir a violência e, por outro, porque essa compreensão será indispensável se e quando houver a intenção de as regular em termos de Direito da Guerra.

São sérias e muito pertinentes as observações que se podem designar como falácias.

A primeira falácia, é que, por mais precisos que sejam os meios empregues (mísseis, veículos aéreos não-tripulados e drones), não há meio que não comporte um maior ou menor desvio, chamado um erro circular provável, ampliando assim a área-alvo e, portanto, atingindo também outras pessoas e instalações. O que vale por dizer que, além do alvo, há sempre que considerar uma área circular em seu redor, com um raio variável em função da distância e da natureza do sistema empregue.

A segunda, liga-se à absoluta dependência que as ações violentas deste tipo têm de informações precisas e exatas.

A realidade é que há e sempre pode haver, erros de informação. Quando se constatam ataques à distância atingindo, por erro, aldeias, escolas ou hospitais, como tem repetidamente acontecido, é sobretudo em falhas de informação que esses erros radicam.

Mas se estas são as falácias, ainda mais graves são os riscos que esta forma de uso da violência comporta. Mais graves porque esses riscos se projetam nos planos moral e político.

A facilidade técnica que carateriza a conduta destas ações, agravada pela sedução que elas induzem, contém realmente dois riscos tremendos. Um é o risco de banalização da guerra, uma circunstância e um cenário absolutamente deploráveis. O outro, prende-se com um risco de menor seriedade e de menor grau de responsabilização política na tomada de decisão. Isso porque, no domínio das aparências, afigura-se muito menos constrangedor mandar carregar num botão a milhares de quilómetros de distância, do que decidir o envio de tropas para o combate.

A realidade que vamos observando confirma esta ilusória e perigosa aparência, que as circunstâncias objetivas rapidamente desmentem.

O que vamos compreendendo relativamente à opção por este tipo de ações evidencia-nos a absoluta exigência de lideranças políticas e estratégicas inquestionavelmente idóneas nos planos moral, intelectual e político. E, muito tristemente, também nos mostra que as lideranças que no presente mais recorrem a este modo de fazer a guerra não reúnem esses predicados essenciais.

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