Portugal gosta de olhar para o sistema educativo como um dos mais eficazes elevadores sociais no pós-25 de Abril, mas hoje sabemos, contudo, que o elevador está cada vez mais condicionado. Ou, melhor, que há diferentes elevadores, com diferentes lotações e distintos acessos a pisos superiores, com rooftops exclusivos, onde não se acede sem cartão premium.Na verdade, a ideia de um sistema educativo que proporcione igualdade de acessos e de oportunidades tem sofrido um revés que a aproxima mais da dimensão da utopia e os sinais evidentes dessa distorção acumulam-se, com expressão nos vários níveis de Ensino, desde o Pré-escolar à mercantilização do acesso ao Ensino Superior, com regras desequilibradas difíceis de corrigir.Na semana que passou, um novo estudo, promovido pela Fundação La Caixa e pelo BPI, sobre o mercado das explicações, veio acrescentar mais alguns dados relevantes a este debate. Em Portugal, cerca de 20% dos alunos (um em cinco) frequentam explicações. No Ensino Secundário, essa proporção sobe para cerca de um em cada três. No total, são perto de 300 milhões de euros por ano que as famílias gastam neste apoio educativo.Muitas vezes, estas aulas extra são uma resposta legítima a dificuldades dos alunos. Outras, a questão é de outro nível: quem pode pagar mais apoio tem mais instrumentos para melhorar resultados escolares. O estudo mostra que as famílias com maior conforto financeiro recorrem mais a explicações e gastam, em média, cerca de 30% mais do que as famílias com menos recursos, que fazem um esforço significativo para garantir este apoio aos filhos, muitas vezes à custa de outras despesas. Um acesso, portanto, desigual.Se a isto juntarmos o recurso ao ensino privado no Secundário por parte de algumas famílias para garantir melhores médias e melhor preparação para os exames, o quadro torna-se mais claro. A verdade é que quem tem mais recursos pode acumular várias vantagens: desde a escolha por escolas historicamente com classificações internas mais altas à aposta em explicações individuais em disciplinas decisivas ou à preparação específica para exames nacionais (motivo para 31% dos alunos recorrerem a explicações, segundo o estudo). Ora, num sistema em que o acesso ao Ensino Superior depende da média do Secundário e dos exames, estas vantagens contam. Muito.Isto não significa que o sistema educativo português tenha deixado de ser um instrumento de mobilidade social. Mas os sinais de alerta acumulam-se e a crise da escola pública só os acentua. A realidade é que o sucesso académico está cada vez mais ligado à capacidade de pagar pelo acesso a determinados elevadores do sistema educativo. E assim sendo, o risco é claro: o sistema educativo pode continuar a apresentar-se como meritocrático, mas na prática reproduz, ou até amplifica, as desigualdades que deveria ajudar a reduzir.