À Colónia do Sacramento, que dista quase 200 quilómetros da capital do Uruguai, Montevideu, chega-se numa rápida viagem de barco a partir de Buenos Aires, mesmo tendo de se cruzar uma fronteira. E, por isso, muitos dos que visitam a capital da Argentina, acabam por atravessar o Rio da Prata para conhecer a pequena cidade uruguaia. Aconteceu comigo em tempos.
Colónia, como é hoje mais referida, tem o atrativo de ser Património da Humanidade. Para um português, esse atrativo é redobrado por ser a ligação histórica a Portugal o que explica a traça da zona antiga da cidade, com partes da velha muralha a terem resistido séculos.
A cidade foi fundada em 1680 por Manuel Lobo, numa tentativa da Coroa Portuguesa de ter acesso ao estratégico Rio da Prata. Isolada do Brasil, o centro do poder português na América do Sul, Colónia foi várias vezes perdida para a Espanha por força das armas, e depois recuperada através de tratados. Em 1816, numa altura em que o líder independentista José Artigas estava em revolta contra os espanhóis, D. João VI mandou invadir o Uruguai e anexou-o ao Império Português, então com capital no Rio de Janeiro. A cidade voltava a ser portuguesa, já não isolada, mas efemeramente.
O Brasil, independente em 1822, herdou o território como a sua Província Cisplatina. Porém, em 1825 a declaração de independência uruguaia levou a uma guerra do Brasil com a Argentina. Em 1828, brasileiros e argentinos fizeram as pazes, e ambos aceitaram o Uruguai, hoje com 3,5 milhões de habitantes. O pequeno país, apesar dos dois grandes vizinhos, construiu a partir daí o seu caminho. E teve altos e baixos, com momentos de grande desenvolvimento e prosperidade, e uma admirável estabilidade política, ao ponto de ter sido chamada a “Suíça da América do Sul”, mas também uma ditadura militar, que nas décadas de 1970 e 1980 manchou as credenciais democráticas uruguaias.
Publiquei há dias uma entrevista com Horacio Guerriero, cujo nome artístico é Hogue. É um veterano do cartoonismo político e, por experiência própria – pois tem 73 anos e viveu a democracia, a ditadura e novamente a democracia –, reconhece que só em liberdade se pode caricaturar os poderosos. Perguntei-lhe como era caricaturar José Mujica, o popular Pepe Mujica, antigo guerrilheiro que foi chefe de Estado e tinha um estilo de vida tão austero que lhe chamavam “o presidente mais pobre do mundo”. Respondeu que Mujica, cujo físico e personalidade eram excelentes para a imaginação dos caricaturistas, sempre encaixou bem.
Mas não era só Mujica, que morreu no ano passado. “Com base nos meus muitos anos a fazer cartoons, acho que os políticos uruguaios têm bom sentido de humor”, disse-me Hogue, numa passagem por Lisboa neste verão. Foi o título da entrevista. Esse poder de encaixe dos governantes uruguaios, e o artista cita outros presidentes, é que lhe permitiu ter o material para um recente livro, cujo título é Bichos Políticos: 40 Años de Historia Política en Democracia.
A democracia regressou em meados dos anos 1980, com os militares a serem rejeitados por uma população que está entre as mais educadas da América Latina desde o século XIX, quando foi feito uma grande investimento no ensino público (obrigatório, gratuito e laico). E hoje as várias classificações internacionais sobre a vitalidade das democracias colocam o Uruguai sempre numa posição de topo, não apenas na América Latina, mas globalmente: no Economist Democracy Index de 2025 surge como “democracia plena”, e no V-Dem deste ano, bem recente, é referido como “Democracia Liberal”. Em ambos os casos, consta entre os 20 países mais democráticos do mundo.
Também no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, o Uruguai se destaca na América Latina, sempre num pódio regional em que surgem igualmente a vizinha Argentina e o Chile.
Portugal, pelos laços históricos e pelo presente promissor de um país com o qual partilha muitos valores, mantém relações excelentes com o Uruguai, observador associado da CPLP e um dos membros do Mercosul com o qual a União Europeia assinou agora um tratado de livre comércio.
Referi a fundação de Colónia em 1680, mas já em 1511-1512 o português João Lisboa tinha navegado no Rio da Prata, antecipando-se em quatro anos a Juan Díaz de Solís, que ao serviço da Coroa Espanhola é muitas vezes descrito como o primeiro europeu na zona. Solis tanto pode ser espanhol, como português (João Pedro Dias de Solis), mas sem dúvida é antiga a presença portuguesa no atual Uruguai. Não esquecer que o próprio Fernão de Magalhães, na missão ao serviço de Espanha que o tornou famoso, andou, em 1520, no Rio da Prata, procurando ali a passagem entre o Atlântico e o Pacífico, que finalmente encontraria bem mais a sul: o atual Estreito de Magalhães.
Em Lisboa, na Avenida do Uruguai, existe um busto de Artigas, o herói nacional, inaugurado em 1998. Oferta da comunidade luso-uruguaia à cidade. Na inauguração, esteve o presidente Julio María Sanguinetti, repetindo no segundo mandato presidencial uma visita a Portugal que já tinha feito no primeiro, quase uma década antes. Foi um dos políticos que Hogue me referiu como um dos alvos das suas caricaturas que não reagiu mal. Sanguinetti foi em 1985 o primeiro presidente eleito da refundada democracia uruguaia.