Eventos adversos e vacinas contra a COVID-19

Filipe Froes

Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

Publicado a

“As convicções podem ser inimigas da verdade mais perigosas do que as mentiras.”

Friedrich Nietzsche, filósofo e crítico cultural alemão, um dos pensadores mais influentes da filosofia moderna (1844-1900)

Durante os 1150 dias da pandemia de COVID-19 foram administradas mais de 13 mil milhões de vacinas numa população global de cerca de 8 mil milhões de pessoas. A maioria das vacinas utilizou a tecnologia inovadora de RNA mensageiro, distinguida com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 2023.

Portugal foi um dos países com maior taxa de vacinação, com 275 doses por cada 100 habitantes, representando uma cobertura igual ou superior a 95% da população elegível. Este sucesso foi determinante no controlo da pandemia e o Imperial College de Londres estima que, só no primeiro ano, a vacinação terá evitado cerca de 20 milhões de mortes.

Com quase toda a população vacinada, é expectável que nessas pessoas ocorram todos os acontecimentos de saúde que surgiriam em circunstâncias normais. Para assegurar uma monitorização rigorosa, foram reforçados os sistemas de farmacovigilância. Entre os mais conhecidos encontra-se a VAERS, Vaccine Adverse Event Reporting System, o sistema norte-americano de notificação de eventos adversos pós-vacinação. A notificação neste sistema é aberta a qualquer cidadão e obrigatória para a indústria farmacêutica. Um registo na VAERS não estabelece uma relação de causalidade e o sistema aceita todos os relatos submetidos, incluindo notificações infundadas ou caricatas, tais como a transformação no “Incrível Hulk”, uma personagem monstruosa de cor verde da banda desenhada.

A definição de evento adverso esclarece que se trata de uma doença, sinal ou sintoma desfavorável ou não intencional, que ocorra temporalmente após a administração de uma terapêutica ou procedimento médico, podendo ou não estar relacionado com essa intervenção. No estudo inicial de segurança e eficácia da vacina RNAm ocorreram 4 óbitos no grupo de controlo não vacinado, o dobro do registado no grupo vacinado, sem relação com a COVID-19 ou a vacina.

Uma relação de causalidade exige uma avaliação rigorosa que inclua a comparação entre a taxa de eventos esperados e a de eventos observados, a identificação de um padrão consistente e a demonstração de plausibilidade biológica. Se os eventos adversos após a vacinação forem superiores à taxa de base na população e ocorrerem numa janela temporal semelhante em diferentes estudos, obtém‑se evidência preliminar, que deve ser sustentada por um mecanismo biológico reprodutível.

A vigilância das vacinas mostra que os eventos adversos surgem, em geral, nas primeiras seis semanas. A exigência de anos de investigação deve‑se à necessidade de detetar efeitos muito raros em grandes populações, e não ao aparecimento tardio desses efeitos.

Diário de Notícias
www.dn.pt