A importância que o Estreito de Ormuz tem para o mundo explica por que se tornou no ponto central do confronto entre os Estados Unidos e Irão. Duplamente bloqueado, pelo Irão e pelos Estados Unidos, caso não seja reaberto, brevemente, tornar-se-à um torniquete à volta do mundo e da economia global.A forte Marinha dos Estados Unidos revelou-se incapaz de abrir e gerir a passagem de navios no estreito. Segundo o New York Times o domínio iraniano no estreito deve-se sobretudo à circunstância de na sua capacidade militar o Irão possuir, na sua Marinha, uns pequenos barcos que se têm revelado importantes no controlo do estreito. São barcos muito pequenos, bastante ágeis, que se deslocam muito rapidamente e escapam ao controlo dos radares e das imagens de satélite, justamente devido à sua pequena dimensão e velocidade. Estão munidos de mísseis e drones e podem atacar qualquer embarcação. Fazem-no sempre de um modo muito rápido, com grande agilidade. Ainda que os EUA tenham destruído uma parte muito considerável da Marinha iraniana, a actuação deste tipo de embarcações tem sido vital ao Irão para o controlo do estreito e o seu bloqueio.Caso não seja reaberto com rapidez, o bloqueio no Estreito de Ormuz irá paralisar uma parte considerável da economia mundial, como aliás já está a verificar-se nos países asiáticos, nomeadamente no Japão e Coreia do Sul: 90% do petróleo consumido no Japão provém do Golfo Pérsico.A China, se o estreito não reabrir em breve será, particularmente, atingida pela escassez de combustível. As importações de petróleo da China provêm sobretudo do Iraque, Arábia Saudita e Irão. Embora ainda possua reservas para quatro meses, o previsível aumento dos preços dos combustíveis terá efeitos significativos na economia chinesa. Os custos industriais subirão com o aumento do preço do aço, dos componentes electrónicos e do transporte. Esta realidade traduzir-se-á por uma subida dos preços de produção e exportações mais caras. Daí o forte empenho que a China tem colocado no obtenção de um acordo de paz.Na União Europeia o bloqueio do estreito afecta sobretudo a Alemanha, a Itália e a Espanha. Na Alemanha a importante indústria automóvel, altamente dependente de energia importada, poderá conhecer uma forte subida de preços e consequente aumento de inflacção. As alterações que possam vir a verificar-se nos custos da indústria automóvel alemã vão ter consequências em Portugal, dado o número de empresas que fabricam peças e componentes para os automóveis alemães.Pelo Estreito de Ormuz passam, diariamente, 20 milhões de barris de petróleo. No que respeita ao gás natural (GNL) cerca de 80 milhões de toneladas atravessam todos os dias o estreito. Uma parte considerável deste gás é produzido no Qatar que, devido à guerra, tem a sua produção já comprometida para os próximos anos. O gás natural além de alimentar várias indústrias em todo o mundo é usado, igualmente, na produção de hélio. Por sua vez o hélio é amplamente utilizado na medicina, sobretudo nas ressonâncias magnéticas. Os chips e semicondutores usam, também, consideráveis quantidades de hélio.Uma das mais curiosas situações de carência de gás natural está a acontecer na Grã-Bretanha que o importa para o fabrico de CO2 industrial (carbono). Este CO2 é vital na cadeia logística inglesa e no processo de refrigeração de alimentos, bebidas e saúde. É ainda usado nos fertilizantes. A carência de CO2 levou já o governo inglês a tomar medidas nomeadamente a reactivação de uma fábrica, em Teesside, no norte de Inglaterra, com investimento de 100 milhões de libras. A fábrica irá produzir CO2 a partir de bioetanol para suprir as carências resultantes do gás natural que, habitualmente, chegava aos portos ingleses proveniente do Qatar.É, pois, todo um mundo que está a ficar afectado por um estreito corredor marítimo que, historicamente, sempre foi vital na economia mundial e que, uma vez bloqueado, funciona como um torniquete nas trocas comerciais de todo o planeta. O Irão sabia desta realidade e usou-a na guerra contra os Estados Unidos. Estes esqueceram-se ou desvalorizaram o importância do estreito. Sem negociações no horizonte é o planeta e o seu equilíbrio comercial e económico que está em causa com este torniquete que está a asfixiar o mundo. Escreve se aplicação do novo Acordo Ortográfico.