Num momento de enorme turbilhão social, milhares manifestam-se por essa Europa fora em busca de melhores condições de vida. Como pano de fundo, assistimos a uma minoria crescente que obriga à imposição de medidas de força para assegurar a ordem pública e a segurança de uma maioria que, apesar de tudo, ainda assiste a tudo pacatamente pela televisão. Mas as últimas semanas foram mais além: tornaram-se palco de mudanças políticas que, para alguns, seriam impensáveis ou pareciam ultrapassadas pelos ventos que têm soprado nos últimos anos.
Olhemos para a Suécia. Assistiu-se ao regresso dos sociais-democratas e da sua líder – a primeira mulher a ocupar o cargo, ainda que de forma efémera. As suas posições de centro-esquerda surgiram em claro contraste com o incumbente de direita, suportado pela extrema-direita sueca.
Quase em simultâneo, cruzámos o Atlântico para assistir à frenética eleição presidencial brasileira. Lula da Silva fez história: partindo em desvantagem para a segunda volta, acabou por vencer. Derrotou a linhagem de Jair Bolsonaro – cujo filho, Flávio Bolsonaro, parece entretanto ter abandonado o Brasil, procurando refúgio da Justiça nas terras do "Tio Trump".
De forma sumária, esta eleição no Brasil poderia ser lida não apenas como um embate entre Lula e o bolsonarismo, mas entre a soberania brasileira e a subordinação aos interesses dos Estados Unidos. Foi a dicotomia de um extremismo que, mais uma vez, dilacerou uma nação.
Agora, o trabalho mais difícil de Lula, aos 81 anos, será unir o Brasil e os brasileiros. O entrincheiramento político e partidário gerou radicalismos que não têm lugar em sociedades desenvolvidas – e, aqui, todos partilham responsabilidades. Fica a dúvida para acompanhar ao longo deste mandato histórico.
Entretanto, Israel também foi a votos. E o expectável aconteceu: mantém-se o clima de controvérsia e confusão generalizada. Com um eleitorado absolutamente fragmentado, não há vencedores, nem vencidos. Enquanto de um lado se tenta um entendimento para uma coligação governamental, do outro assiste-se a um jogo de espelhos, fumos e luzes. Há uma clara tentativa de repetição do ato eleitoral, o que pode confirmar o pior cenário ou dar razão aos extremistas que tentam, a todo o custo, agarrar-se ao poder.
De regresso à Europa, a Sérvia trouxe-nos uma surpresa. Através de um forte movimento estudantil, o país derrotou um experiente político populista de direita, que liderava a nação há mais de uma década. Este perdeu as eleições antecipadas por uma clara maioria e reconheceu a derrota precocemente.
Do outro lado do oceano, as atenções viraram-se para as eleições intercalares americanas – as mid-terms. Se no mandato anterior se esperava uma "onda" republicana que acabou por não surgir, desta feita o desaire mudou de campo. Ver estados historicamente conservadores como o Alasca, o Kansas ou o Texas pintados de azul numa noite eleitoral é o pior pesadelo para qualquer republicano – especialmente para uma ala MAGA.
A perda da maioria no Senado e no Congresso por parte dos republicanos projeta uma segunda metade de mandato bem mais complicada para Donald Trump. Mas indica também uma predisposição clássica do eleitorado americano: o uso das mid-terms para aplicar um "cartão amarelo" ao poder instituído. Algo que, apesar de tudo, não deixa de ser marcante, dado que estas eleições, embora nacionais, têm um forte cariz local.
Por outro lado, a vitória dos democratas traz-lhes um enorme peso político que precisará de ser convertido em votos nominais daqui a dois anos, junto de um eleitorado que, em alguns casos, deu a vitória ao partido pela primeira vez em 100 anos. Não bastará, por isso, limitarmo-nos a apresentar um candidato qualquer no futuro.
No fim do dia, fica uma certeza: 2026 tem sido um ano de profundas mutações políticas, e o ciclo promete não ter terminado. Como costumo dizer e ouvir, a moderação pratica-se; não se põe apenas na boca. O eleitor vota sempre bem quando exerce o seu direito, mesmo quando escolhe o partido B em vez do partido A. Cabe agora ao político conseguir sair da bolha em que vive, perceber a realidade que o rodeia e compreender que o que diz hoje será recordado amanhã.
As ações de quem governa, e até os seus guias de marcha, deixam marcas duradouras. É que os movimentos de "esquerda, direita, volver", quando feitos sem nexo, causam estragos irreparáveis. Saibamos todos interpretar o que eles nos querem dizer.