Há alturas na vida política de um país ou da gestão de uma organização em que o exercício do poder se parece perigosamente com a peça À Espera de Godot. As personagens estão cansadas, repetem sucessivamente os mesmos gestos e conversas, e convencem-se de que, amanhã, chegará finalmente alguém capaz de mudar o curso dos acontecimentos. O problema, como sabia Beckett, é que amanhã pode ser apenas outro nome para hoje.
No Governo, começa a instalar-se uma sensação semelhante, com ministros desgastados, casos que se sucedem e a expectativa de uma remodelação que há muito paira sobre o Executivo. A diferença é que, na política, esperar também tem um preço. Esta sensação de vazio de iniciativa e de compasso de espera permanente é o que de mais corrosivo pode acontecer a um ciclo político. Na peça de Samuel Beckett, Vladimir e Estragon não têm um rumo, mas também não têm responsabilidades sobre o destino do mundo, pois apenas preenchem o tempo. Já na política, a imobilidade não é neutra, pois destrói capital político todos os dias.
Quando um Executivo entra nessa espiral de espera por Godot, seja ele uma remodelação, as próximas eleições ou um facto externo que mude a narrativa, o preço paga-se em três frentes.
A primeira é a paralisia por antecipação. Os ministros que se sentem no “corredor da morte” político deixam de assumir riscos ou de lançar reformas de fundo. Ninguém desenha o futuro quando sente que pode já não estar lá amanhã.
A segunda será a perda de autoridade. A tutela perde força junto da própria máquina do Estado, como as direções-gerais, os institutos públicos e até as empresas do Estado. Sabendo-se que o ministro está a prazo, a resposta da Administração Pública passa a ser o clássico esperar para ver quem vem a seguir.
Por fim, temos o desgaste por saturação. Perante a opinião pública, a repetição dos mesmos argumentos e dos mesmos casos sem uma rutura ou uma lufada de ar fresco transforma o debate político num ruído de fundo irritante e previsível.
O grande perigo de adiar consecutivamente o amanhã é que, quando o chefe do Governo finalmente decide agir, a remodelação já não é vista como um ato de liderança ou um novo fôlego, mas sim como uma reação tardia e forçada pelas circunstâncias. Na política, o tempo raramente joga a favor de quem apenas espera.
Este é o verdadeiro desafio do Executivo liderado por Luís Montenegro. Há reformas que o Governo quer fazer e equilíbrios parlamentares que nem sempre controla. Há também escolhas no gabinete que se transformaram em focos de desgaste e ministros que, funcionando durante algum tempo como para-raios, acabam por contaminar a imagem do Executivo no seu conjunto.
Montenegro enfrenta ainda uma dificuldade própria deste tempo político: tudo acontece depressa e todos exigem tudo para ontem. Isso torna ainda mais importante distinguir entre resistir ao ruído e deixar os problemas apodrecer. São coisas diferentes.
Se a remodelação se tornou inevitável, adiá-la apenas aumenta o seu custo político. E, quando chegar a hora, não bastará trocar nomes. Montenegro terá de mostrar que recuperou a iniciativa, que conhece os pontos fracos do Governo e, sobretudo, que mantém contacto com o país que governa. Porque o problema de esperar demasiado por Godot é descobrir, quando ele finalmente chega, que já ninguém está à espera.