Com exceção dos Jogos Olímpicos, existem poucos espetáculos desportivos com mais audiência a nível mundial do que o Campeonato Mundial de Futebol. De quatro em quatro anos, a nossa perceção do mundo muda um pouco, seja pela forma de comemorar, de jogar ou pelos novos jogadores que nos surpreendem. Neste Mundial, ficaremos um pouco presos a horários de outras latitudes e muitos de nós exibiremos, mais ou menos orgulhosamente, as olheiras que nos denunciarão no dia seguinte aos jogos. No entanto, se este campeonato promete, até pelo número de jogos que serão disputados, também é verdade que a noção do poder do futebol nunca foi tão evidente como no jogo dos quartos de final do Campeonato do Mundo no México, em 1986, que opôs a Argentina e a Inglaterra.Para compreender o contexto, é necessário recordar que este não era apenas um jogo. Era um tira-teimas capaz de decidir o desfecho de uma guerra — pelo menos para os argentinos. Para os sul-americanos, o jogo tinha começado quatro anos antes, com uma derrota clara e inequívoca. Num jogo curto, brutal e sem prolongamento, que decorreu no Atlântico Sul, a 480 quilómetros da costa argentina. Durante pouco mais de dois meses, os argentinos reivindicaram militarmente as "suas" ilhas Malvinas, enquanto os ingleses acabavam com os seus sonhos e ficavam com a posse indiscutível das mesmas, a quem chamam ilhas Falklands. Neste conflito armado, tão surpreendente como irrazoável, o arquipélago das Malvinas passou de sonho argentino e "parte indivisível" do país a motivo de humilhação nacional. As ilhas, que fazem parte da Coroa Britânica até aos dias de hoje, foram conquistadas graças à ação militar e à superioridade bélica inglesas.Quatro anos após o conflito, o Estádio Azteca, na Cidade do México, viu os dois onze dos antigos beligerantes entrarem no relvado. No Mundial do México em 1986 já não havia ditadura militar na Argentina, mas a “Dama de Ferro”, Margaret Thatcher, ainda mandava por terras inglesas e claro nas Falklands. Para os argentinos e o seu capitão, Diego Armando Maradona, era imperativo vingar neste campo mexicano a derrota ocorrida, anos antes, nos mares do sul. Após o início da segunda parte, aos seis minutos, num mau atraso por parte da defesa inglesa levou a uma corrida de Maradona em direção da baliza. O astro, com apenas 1,65m de altura saltou frente a Peter Shilton, guarda-redes inglês e a bola que vinha bastante alta passa por cima do guardião e entra na baliza. Perante a perplexidade dos ingleses, que apelaram sem sucesso para a anulação do golo. Os argentinos festejam a vantagem num lance que ficaria para sempre conhecido como a "mão de Deus". Maradona, ajuda assim a criar um dos maiores mitos no futebol ao afirmar no final do jogo que marcou esse golo "um pouco com a cabeça e um pouco com a mão de Deus". Ainda se festejava no estádio quando quatro minutos depois os argentinos moralizados viam um Maradona, endiabrado, a ultrapassar seis ingleses e a marcar o 2-0, num lance que ficou conhecido como o golo do século, para desalento da seleção de sua majestade. Nem mesmo Gary Lineker e um golo tardio, aos 81 minutos, conseguiram desfazer a vantagem obtida pelo conjunto sul-americano recheado de bons jogadores e liderado pelo muito inspirado génio argentino.Daqui a um mês, no dia 22 de junho, comemorar-se-ão quarenta anos sobre esse jogo inesquecível e se neste mundial estão previstos vários encontros entre países em conflito político ou militar sabemos que durante aqueles noventa minutos é mais importante a união, o espírito de equipa e os craques que se superam em cada mundial de futebol. Em breve saberemos se ainda há espaço para golos do século e quem sabe para uma mão de Deus.