Espelho meu, espelho meu…

Luís Valença Pinto

General. Presidente do EuroDefense-Portugal

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Em tempos recentes e periodicamente, tem-se ouvido na sociedade portuguesa o que parece soar à cantilena “Espelho meu, espelho meu, há alguém mais desejado do que eu?”

Tudo isto tende a fazer-nos recordar El-Rei D. Sebastião.

D. Sebastião foi um rei moço, desprevenido e com um espírito muito influenciado pelos mitos medievais da Cavalaria, foi um rei que não cuidou da continuidade da dinastia, que nos levou à derrota de Alcácer-Quibir e, por essa via, à suspensão por sessenta anos da plena soberania de Portugal.

Não consta contudo que tenha colocado a legitimidade política nacional numa posição reverente e subalterna a técnicos internacionais. Também não consta que haja tomado medidas que tenham aberto fundas brechas na sociedade portuguesa. Promovendo divisões e confrontos, pelo menos ideológicos, entre velhos e novos, ou entre o que era da coroa e do Reino e o que era dos privados.

Igualmente nunca tomou decisões tributárias que tenham levado os portugueses ao protesto generalizado nas ruas de todas as cidades e vilas do Reino.

E se, com maus resultados, pretendeu reinar “pela cruz e pela espada”, não se caracterizou pela adoção simplista, medíocre e quase exclusiva da política do corte. Que se saiba, nunca adotou o corte como sendo o elaborado e subtil sinal de uma política. Nunca bradou ou fez bradar “Cortar, cortar, por El-Rei de Portugal”. Percebeu que havia vida para além do corte.

Os alfaiates e modistas sabem bem que ao corte há que sempre que juntar a costura…

A morte precoce e tonta de El-Rei D. Sebastião nas areias de Marrocos e a consequente crise fazendo perigar a independência nacional, levaram a que medrasse na consciência e no subconsciente dos portugueses, o desejo que nada disso tivesse acontecido. Fizeram dele, mas apenas dele, o Desejado!

Mas isso também deu pretexto a que, ao longo dos tempos, tenham surgido vários “desejados”. Uns por convicção popular, outros por ilusório auto-convencimento. Várias vezes por ilusório e também fraudulento auto-convencimento.

O nevoeiro que se imaginava ser o cenário natural para o regresso de D. Sebastião, ficou sempre confinado e limitado às fracas mentes dos que se acharam ou acham “desejados”.

Diz-nos a História que o mito do sebastianismo nunca se desvaneceu e permanece sendo um factor no labirinto da nossa saudade coletiva, se é tolerado recorrer um pouco às teses profundas e sábias de Eduardo Lourenço.

Mas também nos diz a História que nunca qualquer “desejado “vingou. Que de nenhum ”desejado” jamais veio bem ao país. E que os “desejados” sempre foram rapidamente identificados como truões, ou mentirosos, ou despeitados, ou iludidos.

Numa palavra, “os desejados” não são de desejar!

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