Epístolas de Mahatma Gandhi em tempo de guerra sobre a Paz e a Liberdade da Índia

Puneet R. Kundal

Embaixador da Índia em Portugal

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O panorama geopolítico mundial durante a Segunda Guerra Mundial estava profundamente fragmentado por linhas de fractura ideológicas e militares e testemunhou os horrores do expansionismo imperialista. Nesse contexto, um homem envergando apenas uma tanga pegou numa caneta e dirigiu-se aos intervenientes mais poderosos do cenário mundial, incluindo Adolf Hitler, Franklin Roosevelt, os líderes do Japão Imperial e Chiang Kai-shek, da China. Estas epístolas escritas em tempo de guerra representam o derradeiro teste à filosofia fundamental de Gandhi de paz (Ahimsa) e liberdade (Swaraj).

Em Julho de 1939, quando a Alemanha nazi se preparava para invadir a Polónia, Gandhi redigiu a sua primeira carta a Adolf Hitler, fazendo um apelo directo: “É bastante claro que o senhor é hoje a única pessoa no mundo capaz de impedir uma guerra que poderá reduzir a humanidade a um estado selvagem”. Na sua segunda carta, mais extensa, escrita em Dezembro de 1940, Gandhi condenou explicitamente as acções de Hitler, classificando-as como “monstruosas e impróprias da dignidade humana”. Argumentou que a força bruta gera inevitavelmente uma força bruta ainda maior para a derrotar e afirmou: “Não está a deixar ao seu povo qualquer legado do qual se possam orgulhar”.

A comunicação de Gandhi com o Presidente Roosevelt centrava-se na Liberdade enquanto pré-requisito para a paz. Gandhi admirava os ideais americanos de democracia e liberdade, mas apontou uma gritante contradição: como podiam as potências Aliadas afirmar que lutavam pela liberdade mundial enquanto a Grã-Bretanha mantinha cerca de 400 milhões de indianos sob o jugo colonial? Gandhi escreveu: “Atrevo-me a pensar que a declaração dos Aliados de que lutam para tornar o mundo seguro para a liberdade e a democracia soa a vazio enquanto a Índia e, já agora, a África forem exploradas pela Grã-Bretanha”.

Em Julho de 1942, Gandhi publicou uma carta aberta intitulada “Aos Japoneses”, numa altura em que o Japão Imperial tinha já chegado às portas da Índia, depois de conquistar Singapura e a Birmânia. Gandhi condenou o militarismo de Tóquio e a sua guerra brutal contra a China, recusando-se a aceitar os japoneses como libertadores: “Ficarão deveras desiludidos se acreditam que serão recebidos por nós como libertadores”. A sua correspondência com o líder nacionalista chinês Chiang Kai-shek reflectia uma profunda solidariedade entre povos colonizados e vítimas de invasões. Quando Chiang Kai-shek visitou a Índia, no início de 1942, Gandhi tranquilizou-o dizendo: “Asseguro-lhe que não tomarei qualquer medida precipitada que possa pôr em risco a posição da China”.

Mahatma Gandhi não encarava a independência da Índia como uma ambição nacionalista isolada, mas como um elemento essencial para a construção de uma ordem moral à escala mundial. Recusava-se a aceitar que a liberdade de uma nação pudesse ser conquistada à custa da destruição de outra e, para ele, paz e liberdade eram duas faces da mesma moeda. Ao contestar a violência de Hitler, ao apontar a inconsistência democrática de Roosevelt, ao rejeitar as guerras do Japão e ao expressar solidariedade perante o sofrimento da China, Gandhi conferiu à luta da Índia pela independência uma dimensão de justiça e de princípio moral. Para ele, era evidente que a paz duradoura nunca poderá ser alcançada pela espada, e a verdadeira liberdade jamais poderá ser construída à custa da exploração de outros.

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