Uma coisa é reconhecer que o mundo mudou. Outra, bem diferente, é resignarmo-nos às mudanças que nos querem impor. A primeira significa reconhecer que a água do banho está suja. A segunda implica atirar fora o bebé juntamente com a água.A discussão em torno do Irão é reveladora do tempo em que vivemos e do modo como a polarização domina o espaço público. Não há lugar a meio termo. Boa parte do raciocínio dos que defendem a legitimidade do ataque dos EUA e de Israel ao Irão assenta em dois argumentos. Primeiro, o regime de Teerão viola os Direitos Humanos, oprime brutalmente o seu povo, é há anos fator de instabilidade regional e promotor do terrorismo internacional. Segundo, não se pode permitir que o Irão atinja o estatuto de potência nuclear. Reconhecer estas premissas não devia necessariamente impedir de reconhecer outras, igualmente válidas, que não as contrariam: o ataque dos EUA e de Israel viola o Direito Internacional, a Carta das Nações Unidas e dificilmente contribuirá para a estabilização regional e para a implementação da democracia no Irão. Não há um único exemplo bem-sucedido de exportação da democracia por via de mísseis e bombardeamentos.Tiro no pé de Von der LeyenA Presidente da Comissão Europeia foi mais uma vítima da hiperpolarização que enxameia o debate público e que transforma toda e qualquer discordância numa guerra de trincheiras. Defender que a Europa não pode ser a guardiã de um mundo que já não existe é, justamente, contrariar os pilares que não só estão na génese como suportam o projeto europeu.Crise identitáriaMas aceitar o mundo como é não pode ser argumento, nem, tampouco, fatalidade. A política, ainda que necessariamente pragmática, não pode ser o campo da resignação, nem a aceitação, mesmo que tácita, da lei do mais forte. Pelo contrário, tem de ser o compromisso possível, mas também desejável, entre o pragmatismo e a afirmação aspiracional. Ou seja, entre o mundo que temos, mas também, e sobretudo, o mundo que queremos ter. Quem se limita apenas ao primeiro faz da política apenas um exercício cínico e esquece que a evolução é feita de transformações, muitas das quais se limitaram, no início, a ser apenas ideias, aspirações de quem, não se conformando com a aspereza do mundo, ousou pensar – e fazer – diferente.A construção europeia é precisamente resultado deste compromisso. Do reconhecimento de que a Europa, no espaço de uma geração, tinha sido destruída por duas Guerras Mundiais, que o mundo não resistiria a uma terceira e que era desejável e possível fazer diferente e atirar para o baú da História séculos de rivalidades e de conflitos sangrentos. Sempre houve abusos, como sempre houve títeres para quem a vida humana é apenas um detalhe. Justamente por isso, não é à toa que o Direito Internacional e os valores plasmados na Carta das Nações Unidas constituíram — e constituem — enormes avanços civilizacionais que não merecem ser desconsiderados ou remetidos à condição de relíquias ultrapassadas, sem lugar no mundo de hoje.Neste mundo vincado por Donalds, Vladimirs, Benjamins, Elons, Khameneis, Kims, Bills e Ruttes, o importante é não perder de vista a esmagadora maioria de anónimos que, certamente, só deseja viver em paz, poder garantir um melhor futuro para si e para os seus, sem ter de se entrincheirar e escolher entre a frieza do pragmatismo e a ingenuidade da aspiração.