Começaram por ser fogueiras no cimo das falésias para orientar os navios, mas foi a partir do ano 280 a.c., com o célebre Farol de Alexandria - construído na Ilha de Faros, no Egito, supostamente com mais de 100 metros de altura - que se tornaram em construções monumentais. As minhas férias de infância foram passadas à beira de um farol e, hoje cá continuo à beira de outro. Olho sempre com um fascínio particular para todos eles, pensando nas vidas que salvaram e no alívio que trouxeram a quem os avistava ao longe, em pleno mar.O meu primeiro farol foi o da Barra, localizado na entrada da Ria de Aveiro, na Gafanha da Nazaré. Com muito orgulho, dizíamos ser o mais alto de Portugal e o segundo maior da Europa, com os seus 62 metros de altura e as suas marcantes riscas amarelas e vermelhas. Numa praia ventosa e muito dada a nevoeiros noturnos e matinais, o farol não só iluminava os navios, como “roncava” para que o ouvissem. Quando a ronca se calava, era sinal de que o sol ia abrir - uma espécie de despertador a chamar-nos para a praia.Foi construído entre 1879 e 1893, precisamente porque aquele fino fio de areia criava ilusões óticas que levavam as embarcações a navegar perigosamente perto da terra. Feito de pedra e alvenaria, é particularmente resistente às intempéries.Na minha família, havia outra afinidade com o nosso Farol. Contavam que tinha sido o meu bisavô materno a fornecer a pedra vermelha de Eirol para a sua construção; a seguir, ergueu a nossa casa com essa mesma pedra, ali ao lado, onde várias gerações passaram férias. De certo modo, nós e o Farol partilhávamos a mesma matéria, que os carros de bois carregaram laboriosamente de Eirol até à Barra!Depois disso, fiquei sempre com uma enorme curiosidade de visitar outros faróis, dentro e fora da costa portuguesa. Sobretudo aquele que está mais a sul, na Ilha da Culatra: o Farol do Cabo de Santa Maria, de 1851, à entrada da Ria Formosa, que se tornou o meu segundo farol. Tem “apenas” 42 metros de altura, mas, visto de perto, parece muito maior.Na verdade, ainda que o GPS e outras tecnologias tenham substituído algumas das suas funções, os faróis continuam a ser úteis como redundância e apoio às pequenas embarcações. Já não existe, como antigamente, a figura do faroleiro que subia as escadas ao pôr do sol para retirar os panos que protegiam os espelhos e os voltava a colocar de manhã, mas continuam a atrair muitas pessoas quando abrem às quartas-feiras.Num mundo que parece ter perdido o rumo, com um líder mundial que surpreende pelo improvável e um Governo nacional à deriva - onde uma ministra chega a mandar investigar as funções anteriores do seu colega do lado -, talvez precisemos mesmo de outros “faróis” que nos guiem a bom porto. Afinal, como está escrito no Faro di San Nicolò, na Ilha do Lido, em Veneza: “O farol é a vida e o paraíso pode esperar.” Uma máxima que comprovei ser a mais pura verdade nas inúmeras férias que tenho passado entre os meus dois faróis de estimação.