A guerra no Médio Oriente arrasta-se num impasse que já não surpreende ninguém, mas cuja persistência continua a corroer a estabilidade regional e a expor os limites da estratégia americana. Os Estados Unidos demonstraram, mais uma vez, a sua superioridade militar convencional: destruíram alvos, neutralizaram bases, desmantelaram redes logísticas. Mas continuam incapazes de controlar o terreno político e operacional. O adversário que enfrentam não joga no mesmo tabuleiro. O Irão e os seus aliados dispersos recorrem a uma guerra assimétrica, feita de guerrilha, mísseis de curto alcance, drones autónomos e sistemas de Inteligência Artificial aplicados à recolha de alvos. É uma estratégia que não exige vitórias decisivas, apenas desgaste contínuo. E nada indica que o regime iraniano esteja perto de ruir por dentro, como alguns em Washington anteciparam no início do conflito.Neste ambiente, Teerão não só mantém os ataques à navegação no Estreito de Ormuz, como parece empenhado em alargar o caos. Ataca bases militares, ameaça instalações petrolíferas e centrais de dessalinização nos países vizinhos, e tenta explorar fissuras entre aliados dos EUA, insinuando que navios de países “neutros” poderão circular sem ser incomodados. É uma diplomacia de intimidação, que combina pressão militar com mensagens políticas calculadas para testar a coesão do bloco Ocidental e a resiliência das monarquias do Golfo..Entre os vários desfechos possíveis, há um que merece atenção especial: a possibilidade de Donald Trump declarar vitória unilateralmente, suspendendo os ataques ao Irão e apresentando ao mundo a destruição do programa nuclear iraniano como prova de sucesso. Politicamente, seria um gesto eficaz, sobretudo para efeitos internos. Mas não significaria o fim da guerra. Para que o conflito terminasse, de facto, seria necessário que Israel suspendesse também as operações militares e que o Irão deixasse de atacar países vizinhos e de ameaçar a navegação no Estreito de Ormuz. Nada disto está garantido. O risco é o de um “fim da guerra” apenas nominal, com a violência a continuar, mas sem o envolvimento direto dos EUA. Uma espécie de “paz teórica” que não corresponde à realidade no terreno.É precisamente este cenário que as monarquias árabes do Golfo mais temem. Segundo fontes citadas pela Reuters, países como o Catar e os Emirados não querem ser arrastados para uma guerra que não iniciaram, nem controlam. Mas a sua posição mudou, à medida que se tornaram alvos dos ataques iranianos. Se antes defendiam uma resolução rápida, agora preferem que os EUA levem o conflito até ao fim, eliminando a ameaça iraniana de forma definitiva. O receio é claro: que Trump retire as forças americanas demasiado cedo, deixando os aliados expostos a um Irão ainda mais agressivo e convencido da sua própria resiliência.."Segundo a Reuters, as monarquias árabes do Golfo receiam que Trump termine a guerra antes de derrotar de vez o Irão, deixando-as expostas a um regime ainda mais agressivo e seguro da sua resiliência.”.Tudo isto deveria preocupar-nos. Não apenas pelos efeitos na economia global, em áreas como a energia, o comércio marítimo e as cadeias de abastecimento, mas pelo risco de uma escalada que conduza a um conflito interminável. O pior cenário, embora ainda distante, não pode ser descartado: uma intervenção terrestre dos EUA no Irão. Um passo que teria consequências imprevisíveis para a segurança internacional e para o próprio papel dos EUA no sistema global, com o espectro de um “momento Suez” a pairar sobre Washington. O instante em que uma superpotência descobre que já não controla plenamente o curso dos acontecimentos e em que a vitória militar não impede a derrota no plano político.