Enriquecer sempre mais e ficar na História

António Rebelo de Sousa

Economista e professor universitário

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Há quem procure ver na actuação política de Trump propósitos elaborados, uma estratégia sofisticada, a defesa de valores tradicionais e genuinamente nacionalistas / conservadores, enfim, uma lógica justificativa para o que tem sido a sua “praxis”.

Seria, porventura, uma estratégia para dividir a Rússia da China?

Seria, por hipótese, um regresso à Doutrina Monroe e, por conseguinte, a uma divisão de “zonas de influência” entre as grandes potências?

Seria a afirmação das teses ditas “realistas”, assentes numa perspectiva transaccional e na análise da correlação de forças?

Seria a prevalência da defesa de interesses nacionais contra a afirmação do multilateralismo e de uma visão “internacionalista” que destrói as soberanias e “despreza” as tradições históricas das Nações?

Mas, em que medida é que as provocações de integração do Canadá ou da Gronelândia nos EUA contribuem para dividir a Rússia da China?

E até que ponto a posição de pressionamento da Ucrânia para se render ao Sr. Putin ajuda a dividir Putin de Xi?

E, já agora, o que é que a Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, apoiada por Trump, tem que ver com a Doutrina Monroe?

A Doutrina Monroe, na altura em que surgiu, tinha um conteúdo progressista, porque entendia que os EUA deveriam intervir no Continente Americano para defender o princípio da auto-determinação das ex-colónias espanholas (e não só) contra a dominação das potências colonizadoras europeias.

E mais, defendia, também, que os EUA não deveriam intervir na Europa, quando a nova política de segurança americana entende que deve intervir-se para favorecer a extrema-direita europeia.

Nada de mais diferente.

E aonde é que se pretende, hoje em dia, fazer prevalecer os interesses da Nação Americana contra uma visão “internacionalista” que destrói a soberania e “despreza” as tradições históricas das Nações quando se preconiza a anexação do Canadá , quando se despreza a História das Nações Europeias, enfim quando se tem uma perspectiva puramente transaccional (e, portanto, de defesa de meros interesses económico-financeiros) de tudo?


A única tese que, de facto, apresenta alguma razão de ser é a da tentativa de afirmação das teses ditas “realistas”, assentes numa perspectiva transaccional e na análise da correlação de forças.

Mas, numa perspectiva transaccional (de tipo para-medieval) que não visa, essencialmente, o enriquecimento dos EUA e que jamais poderá ser confundida com um propósito de desenvolvimento da economia americana.

Visa, em primeiro lugar, o proveito económico-financeiro de um conjunto muito restrito de oligarcas associados ao próprio poder político.

E visa a conversão de Trump numa figura incontornável da História Americana, associando-o a instituições de prestígio – como a Fundação Kennedy – ou a decisões relevantes – como a da atribuição do Prémio Nobel da Paz ou da presidência vitalícia do “Conselho da Paz” para Gaza –, numa manifestação de narcisismo extremo.

E o enriquecimento pela força dos EUA não deve ser confundido com desenvolvimento.

O desenvolvimento não passa pelo esbulho do petróleo ou das “terras ricas” de um país qualquer pela força, passa, isso sim, pela melhoria das condições de vida da população, pela ausência de segmentos importantes da população que experimentam uma situação de pobreza, que não têm acesso à Saúde (nomeadamente através de um Serviço Nacional de Saúde minimamente eficiente e tendencialmente universal), à Educação (com bons estabelecimentos de ensino público), a boas redes de transportes ferroviários por todo o país, a uma Segurança Social que inclua o apoio em situação de desemprego e de velhice, em que existam segmentos altamente bem-sucedidos da sociedade, mas em que as desigualdades sociais não se apresentem gritantes, havendo, de um lado, oligarcas com níveis de vida elevadíssimos e, do outro lado, pessoas que vivem em condições de verdadeira indignidade humana.

E, nesse capítulo, os EUA têm alguma coisa a aprender com os países nórdicos europeus. Seria bem melhor que alguns tivessem uma concepção de desenvolvimento que não passasse totalmente ao lado do modelo nórdico social-democrata europeu, em vez de se inspirarem na concepção ultra-liberal e transaccional Trumpista.

Daí que conclua que, hoje em dia, o Ocidente tem um pretenso líder que reconduz a razão de ser da sua existência a enriquecer sempre mais e a ficar na História, senão pelas más razões, por razões meramente prosaicas.

Nem mais, nem menos…

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