Energia, dependência e o futuro de Portugal

Eduardo Teixeira

Economista e deputado à Assembleia da República pelo Chega

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Numa altura em que o tema da energia voltou a dominar a atualidade internacional, torna-se impossível ignorar a forma como os conflitos geopolíticos continuam a influenciar diretamente a vida dos cidadãos. O aumento da instabilidade no Médio Oriente e as tensões em torno do Estreito de Ormuz vieram recordar ao mundo uma realidade muitas vezes esquecida. Basta bloquear uma das principais rotas marítimas para afetar economias inteiras, pressionar os preços e aumentar os custos para famílias e empresas.

Talvez por isso faça ainda mais sentido que, nos próximos dias 10 e 11 de maio, Portugal acolha, no Palácio de Mafra, a reunião da Comissão da Energia, Ambiente, Clima e Água da Assembleia Parlamentar da União para o Mediterrâneo, comissão que tenho a honra de presidir há 2 anos. Um Fórum mundial de 3 Continentes (Europa, Ásia e África).

O encontro reunirá representantes parlamentares dos Países Mediterrânicos e do Parlamento Europeu, precisamente num momento em que as questões energéticas deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental para passarem a representar um tema central de soberania, estabilidade económica e segurança internacional.

O caso do Estreito de Ormuz é hoje um dos exemplos mais claros dessa vulnerabilidade global. Cerca de 20% do petróleo mundial passa por aquele corredor marítimo. Sempre que existe uma ameaça de bloqueio ou instabilidade, os mercados reagem imediatamente, os preços sobem e os efeitos fazem-se sentir em toda a cadeia económica.

Portugal não escapa a esta realidade. Apesar da forte aposta nacional nas energias renováveis, a nossa economia continua profundamente dependente de combustíveis fósseis em áreas essenciais como os transportes, a indústria e a logística. Continuamos a importar energia em larga escala e continuamos expostos às flutuações internacionais.

Existe, aliás, um paradoxo que importa reconhecer. Portugal produz atualmente uma grande percentagem da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, conseguindo até amortecer parte do impacto externo. Contudo, quando os preços internacionais disparam, os portugueses continuam a sentir diretamente esse aumento no custo dos combustíveis, da eletricidade, dos transportes e, inevitavelmente, do custo de vida.

A isto junta-se outro problema estrutural: a elevada carga fiscal sobre a energia. Mesmo quando o custo base da eletricidade se encontra abaixo da média europeia, o peso dos impostos continua a agravar a fatura final paga pelas famílias e pelas empresas portuguesas.

Esta realidade afeta particularmente os setores mais dependentes de energia, colocando em causa competitividade, investimento e capacidade produtiva. Muitas empresas vivem hoje numa incerteza constante, pressionadas pela volatilidade dos preços energéticos e pela ausência de uma estratégia verdadeiramente estável e sustentável.

É precisamente por isso que os debates sobre energia não podem ser tratados apenas como uma questão ideológica ou mediática. A transição energética é importante e inevitável, mas não pode ignorar a realidade económica e social dos países.

Precisamos de políticas equilibradas, que garantam sustentabilidade ambiental sem sacrificar competitividade, estabilidade e qualidade de vida. Precisamos de segurança energética, mas também de previsibilidade para quem trabalha, produz e investe.

A reunião que decorrerá em Mafra representa, nesse sentido, uma oportunidade importante para reforçar a cooperação internacional numa região particularmente estratégica como o Mediterrâneo, onde as questões ambientais, energéticas e geopolíticas estão hoje profundamente interligadas. Portugal tem assim voz e será uma Cimeira que se espera reivindicativa e importante para Todos os Seus Membros.

O futuro da energia será um dos maiores desafios da próxima década. E os países que não conseguirem equilibrar independência energética, sustentabilidade e proteção económica ficarão inevitavelmente mais frágeis.

Portugal tem condições para desempenhar um papel relevante neste debate. Mas isso exige visão estratégica, capacidade de execução e políticas que não se limitem ao discurso político, mas que cheguem efetivamente ao país real.

Porque falar de energia é, hoje, falar da vida das famílias, da competitividade das empresas e da soberania das nações.

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