Empresas e empresários portugueses

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Uma das razões que melhor explicam o atraso da economia portuguesa reside no perfil dos empresários portugueses e na dimensão do tecido empresarial do nosso país.

O empresário português trata a competitividade das suas empresas pelos baixos salários. Em vez de apostar na modernização da sua unidade empresarial pela inovação e digitalização, é a oferecer salários baixos que acha que a sua empresa ficará mais competitiva.

A juntar a esta visão atávica acrescente-se o facto de o empresário português não ser, propriamente, um campeão no incentivo à formação profissional dos seus empregados.

Esta é apenas uma das razões que explica a baixa competitividade do nosso tecido empresarial. Existem outras e bastante importantes.

Portugal é um país de micro, pequenas e médias empresas. Ao longo dos anos e de sucessivos Governos não foram, politicamente, criadas as condições para que o nosso país tivesse grandes empresas e grandes grupos económicos, a exemplo do que existe em alguns países da União Europeia e, sobretudo, nos Estados Unidos.

Vejamos os números da Pordata. Portugal tem 1.538.389 micro empresas (até dez trabalhadores). Ou seja 96,7% do tecido empresarial português é constituído por micro-empresas, portanto sem dimensão internacional.

Se avançarmos para as pequenas empresas (entre 10 e 50 trabalhadores) elas são 46.686, o que em percentagem representa 2,9%. Quanto às médias, existem 6.617 unidades empresariais (apenas 0,4%) e, finalmente, quanto às grandes empresas (mais de 250 trabalhadores), o número é de 875 (0,003%).

Continuemos ainda no domínio dos números e vejamos como nos situamos comparativamente com a média europeia no que respeita a grandes empresas. Nós temos apenas 0,003%, enquanto na média europeia esse número sobre para os 0,9%.

Naturalmente que este desenho empresarial português tem consequências graves para o país. Menor produtividade, menos exportações, menores investimentos em inovação e digitalização, e, é claro, a saga dos salários baixos, incluindo para os mais jovens, sejam licenciados ou não.

Além do perfil do nosso tecido empresarial, um dos aspectos que mais afecta a economia portuguesa é o facto de as grandes empresas e grupos económicos estarem capturados pelo capital internacional. Isso acontece, justamente, com as maiores empresas. Energia, seguros, banca, saúde, cimentos, telecomunicações, hotelaria e indústria automóvel são áreas onde campeia o capital internacional. Chineses na EDP (22,5%) e na REN (25%), Turquia nos cimentos (100%), Países Baixos na Brisa (83,3%), para dar alguns exemplos.

Ou seja, das 20 maiores empresas portuguesas cotadas em bolsa, metade tem o centro de decisão ou o maior accionista situados num outro país. De acordo com dados do Banco de Portugal, em 2025 a percentagem de capital estrangeiro nas empresas portuguesas era de 70% do PIB português, o equivalente a 217 mil milhões de euros.

Como chegámos até aqui? É que no ano de 2006 o valor de investimento internacional em grandes empresas portuguesas era apenas de 46%.

A explicação reside no que aconteceu no período de 2011 a 2014, quando fomos intervencionados pela troika devido às políticas financeiramente aventureiras de José Sócrates. Por necessidade, e por imposição do Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e da Comissão Europeia, fomos forçados a vender algumas empresas que eram (e são ainda) pilares da economia portuguesa. Vendemos a EDP e a REN aos chineses, os aeroportos (ANA) aos franceses em troca da assistência financeira de que necessitávamos.

Foram-se os anéis, ficaram os dedos.  Desde então, não foi possível reverter esta situação, que não favorece o país. Para terem uma ideia, se tomarmos a Dinamarca como exemplo, este país tem um nível de investimento estrangeiro nas suas empresas de 36%. Nós temos, sensivelmente, o dobro.

Empresários sem visão, empresas descapitalizadas, pouco investimento na inovação, pilares empresariais tomados por capital internacional, más políticas, são algumas das principais razões por que a nossa economia não se aproxima das economias mais desenvolvidas dos países de topo da União Europeia. Dá que pensar, portanto!o

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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