Estava o mundo preocupado e apreensivo com os desvarios dos poderosos e os seus impactos nas várias dimensões da vida, da escassez de fertilizantes ao aumento dos preços dos combustíveis, da escassez de jet fuel a uma inopinada inflação, quando descobriu que, na Ibéria, os mais altos responsáveis olhavam para tais estranhos fenómenos não com surpresa e preocupação, mas, antes, com “empatia e compreensão”.Numa estação de serviço de uma parte dessa jangada que teimava em não partir, um autóctone foi invectivado a pagar mais de cem moedas pelo mesmo combustível que, há apenas dois dias, lhe tinha custado 80. E o autóctone logo respondeu ao gasolineiro que tinha por ele a maior empatia e que, também por isso, pedia-lhe a necessária compreensão para continuar a pagar o que sempre pagou.Depois de muitos argumentos trocados, e não tendo conseguido dilucidar se prevalecia a empatia ou a compreensão, concordaram que a causa de tudo o que estava a acontecer seriam os estreitos, assim se confirmando o velho adágio: “Não nos devemos meter em caminhos apertados…”Estavam ambos nesta interessante conversa quando o gasolineiro recebe um telex informando que os produtos que ali se vendiam iam sofrer um novo aumento. Desta vez, dez cêntimos por litro. Logo concluíram, ambos, que seria necessário um significativo reforço da empatia e da compreensão, ainda que não soubessem a qual deles seria atribuído cada um dos substantivos.Mas, a esse empático desafio logo outro se sobrepôs. O de recuarem a um tempo que nunca tinham vivido.E, se eles não tinham vivido esses longínquos tempos de incerteza inflacionista, os seus filhos muito menos.Filhos, do gasolineiro e do autóctone, que, chegados à mercearia, queriam bolachas, gomas e, claro, por determinação paterna, os componentes essenciais da alimentação.Os pais lá foram enchendo os carrinhos e, chegados à caixa, verificaram que a um rendimento que não se tinha alterado, se contrapunha uma conta que os malvados estreitos tinham feito alargar.Estavam pais e filhos a debater-se com a opção entre bolachas e arroz quando o merceeiro, homem informado, lhes diz que teria lido que o nível de vida em Portugal, face à média da UE, teria recuado, em 2025, e estaria, agora, abaixo do registado no ano 2000.Entre pais que não tinham vivido aquela época de fortuna e filhos que não sabiam bem por que é que “ o nível de vida médio da UE” lhes condicionava a vontade de deitar o dente às bolachas, não parecia que a “empatia e compreensão” resolvessem fosse o que fosse. Nem pagavam as contas do dia-a-dia, nem davam esperança num futuro melhor.E, assim, gasolineiro e autóctone voltaram para casa, vociferando contra os estreitos, contra presidentes e ayatollahs, esperando que, ao menos neste rincão da jangada, a “empatia e compreensão” continuem a ter valor fiduciário. Ao menos para as bolachas das crianças. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico