Emigração e habitação: quem não tem casa, casa com a Ryanair

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Lembramos os anos 60 e 70 como o tempo da grande emigração: passar a salto para França, a mala de cartão, as aldeias do interior a esvaziarem-se. E foi. Em 1970, o ano mais intenso, partiram mais de 180 mil portugueses. Mas o país que guarda essa memória a preto e branco tem hoje mais gente lá fora do que tinha então. Segundo as estimativas do Banco Mundial compiladas pelo Observatório da Emigração, viviam no estrangeiro, em 1970, cerca de 1,28 milhões de pessoas nascidas em Portugal. Hoje, segundo as Nações Unidas, são cerca de 1,8 milhões, o equivalente a 17% de quem reside no país. Na União Europeia, só a Roménia, a Croácia e a Bulgária têm uma proporção maior.

Porque partem? Rui Pena Pires e a equipa do Observatório mostram que as saídas cresceram com a estagnação do início do século e dispararam com a austeridade de 2011-2014. Portugal, um país caro para os rendimentos locais, continua na periferia de uma Europa onde se circula livremente. Os inquéritos aos emigrantes acrescentam a falta de perspetivas e o bloqueio das carreiras. Não se foge só da falta de trabalho decentemente remunerado, foge-se de um horizonte fechado.

Mas há um fator que pesa hoje como nenhum outro: a casa. Segundo o Banco de Portugal, a renda mediana passou de 36% para 47% do rendimento mediano das famílias entre 2019 e 2025. Em Lisboa chega aos 72% e no Porto aos 66%, quando o próprio Banco considera sobrecarga tudo o que ultrapasse os 40%. Comprar casa em Lisboa ao preço mediano exigiria 102% do rendimento de uma família. De acordo com o Eurostat, os preços da habitação quase triplicaram entre 2015 e 2025 (+180%), a segunda maior subida da União Europeia.

A comparação europeia é brutal. Uma análise sobre 127 cidades europeias (Tradingpedia, 2026) concluiu que um T1 no centro de Lisboa custa praticamente um salário médio líquido inteiro, o pior rácio do continente. No Porto custa mais de 85%, em Milão cerca de 75% e em Essen, na Alemanha, menos de 20%. Não admira que os jovens portugueses só saiam de casa dos pais, em média, aos 28,9 anos, contra 26,2 na média europeia (Eurostat, 2024). Um inquérito da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostrou em 2021 que 72% dos jovens ganhavam menos de 950 euros líquidos por mês. E um estudo da Federação Académica do Porto sobre a emigração de jovens qualificados (2025) coloca a habitação, ao lado dos salários e da precariedade, entre as razões para partir. “73% dos estudantes do ensino superior inquiridos (com maior incidência ao nível de mestrado) consideram certa ou muito provável a hipótese de emigrar após terminarem os estudos”. Para muitos, a escolha não é entre Lisboa e o interior. É entre o quarto de infância e um T1 em Zurique ou no Luxemburgo.

Ao contrário dos anos 60, já não é a miséria rural extrema que empurra os portugueses para fora nem uma ditadura que os obriga a fugir a salto. É o salário que não paga a renda, a carreira que não avança, o futuro que não se vê. Para além, naturalmente, das possibilidades de mobilidade oferecidas a novas gerações com mais e melhor educação e que fala inglês e outras línguas, uma novidade histórica entre nós. Abrir o mundo às pessoas tem também boas e naturais consequências.

A emigração não é um capítulo que o 25 de Abril encerrou. É uma das constantes do Portugal democrático, apenas menos visível e mais banal, porque já não se faz pela serra, mas em voos low-cost. Era bom é que fosse de facto emigração – e não uma fuga em desespero

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