Em tempos de guerra, acelerar – não travar – a sustentabilidade

Sofia Santos

PhD, CEO da Systemic

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Sempre que o mundo entra em sobressalto – seja por uma guerra, uma crise económica ou uma instabilidade política – ressuscita um argumento recorrente: o de que o cumprimento das metas de sustentabilidade e das exigências ESG deve ser “colocado em pausa”. Alega-se excesso de custos, complexidade regulatória e perda de competitividade, sobretudo no que toca às pequenas e médias empresas. O padrão é sempre o mesmo!

O problema deste raciocínio é simples: parte do pressuposto errado de que a sustentabilidade é um luxo dos tempos de bonança. Não é. Pelo contrário, a sustentabilidade é, cada vez mais, uma condição de resiliência económica, energética e geopolítica – sobretudo em tempos de crise.

As guerras que hoje não são apenas conflitos militares. São, também, guerras energéticas. A invasão da Ucrânia pela Rússia veio expor de forma brutal a dependência europeia dos combustíveis fósseis importados. Mais recentemente, a escalada de tensões entre os Estados Unidos e o Irão volta a colocar em risco o abastecimento global de petróleo e gás, com impactos diretos nos preços da energia, na inflação e na estabilidade das economias mundiais.

Ignorar esta dimensão energética é ignorar o essencial. Cada choque geopolítico sublinha a mesma fragilidade estrutural: a dependência excessiva de fontes de energia fósseis concentradas em regiões instáveis e controladas por regimes pouco previsíveis. A resposta racional a esta vulnerabilidade não é desacelerar a transição energética – é acelerá-la. É precisamente esse o argumento defendido por Frank Elderson, membro do conselho de administração do Banco Central Europeu, no seu artigo recente no Financial Times. Ele afirma que a segurança energética e a descarbonização são hoje objetivos indissociáveis, e que investir em renováveis, eficiência energética e eletrificação não é apenas uma decisão ambiental; é uma decisão estratégica que reduz a exposição a choques externos, volatilidade de preços e dependências geopolíticas perigosas.

Curiosamente, enquanto parte do debate no Ocidente parece inclinado a relativizar ou adiar o ESG em nome da urgência económica, a China segue na direção oposta. De acordo com o China Briefing, 2025 marcou a transição do ESG na China de um exercício voluntário para um verdadeiro sistema de compliance regulatório, com novas exigências de reporte, expansão do mercado nacional de carbono e reforço da fiscalização ambiental, tendência que se intensificará em 2026. Pequim está a tratar o ESG não como um custo dispensável em tempos difíceis, mas como um instrumento central de política industrial, competitividade e estabilidade económica. Perante este contraste, a pergunta impõe-se: estará a China errada – ou será o Ocidente que está a confundir curto prazo com estratégia?

Ainda assim, persiste a narrativa de que as exigências ESG são um “peso” em tempos difíceis. Em Portugal esta narrativa tende a espalhar-se pelos ditos “especialistas”. Mas chamo a atenção de que essas afirmações refletem uma leitura curta e defensiva da realidade e do futuro. A evidência empírica mostra que empresas com melhores práticas ambientais, sociais e de governação tendem a apresentar maior capacidade de adaptação, melhor gestão de risco e maior acesso a financiamento - precisamente quando o contexto económico se torna mais adverso.

No caso das PME, o desafio não está em reduzir a ambição climática, mas em melhorar os instrumentos de apoio, simplificar processos e alinhar políticas públicas com a transição. Usar a guerra ou a instabilidade como argumento para recuar é, na prática, adiar investimentos que aumentariam a competitividade futura e a autonomia estratégica das economias.

A história recente ensina-nos que cada crise energética não é um acidente isolado, mas um sintoma de um modelo esgotado. Continuar a depender de combustíveis fósseis não nos torna mais seguros nem mais competitivos - torna-nos mais vulneráveis.

Em tempos de guerra, o erro não é exigir demasiado da sustentabilidade. O erro é achar que podemos sobreviver sem ela.

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