Em nome dos filhos

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Sob a cruz de Cristo pregada na parede principal da sala, o juiz Flávio Dino, fervoroso católico, citou a passagem Mateus 5:13 em que Jesus pergunta “se o sal for insípido, com que se há de salgar?”, no início daquela que foi, segundo observadores, “uma das mais históricas audiências do Supremo Tribunal Federal (STF)”, no último dia 15.

A cada intervalo “da sessão do STF mais controversa dos últimos anos”, de acordo com os mesmos observadores, o juiz André Mendonça, fervoroso evangélico, colocava as mãos em oração, aparentemente a pedir “sabedoria” e “discernimento”, como o rei Salomão.

No entanto, não foi Salomão, autor do mais célebre julgamento do Antigo Testamento, nem Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, o juiz bíblico mais evocado no tal histórico e controverso plenário. Foi Eli, o pai de Hofni e Finéias. Mas já lá vamos.

Logo a abrir a audiência, que tratava da suposta promiscuidade revelada em mensagens de outro juiz, Alexandre de Moraes, com o banqueiro corrupto Daniel Vorcaro, o colegiado foi agitado por notícias a dar conta de pagamentos de mais de um milhão de euros do mesmo banqueiro a uma empresa de Kevin Nunes Marques.

Kevin Nunes Marques é filho de Kássio Nunes Marques. também juiz do STF, que, por causa disso, se declarou impedido de votar no julgamento do colega e abandonou a sala.

Nessas mesmas notícias, eram citados ainda contatos frequentes em 2024 e 2025 entre Vorcaro e Rodrigo Fux, que o tratava por “irmão” em mensagens de telemóvel.

Rodrigo Fux é filho de Luiz Fux, outro juiz do STF, que se manteve, ainda assim, até ao fim da sessão e votou.

Na acusação inicial contra o juiz Moraes já havia sido divulgado que o banqueiro mafioso pagara as despesas de deslocação e estadia de Pedro Gonet a Londres para um evento jurídico.

Pedro Gonet é filho de Paulo Gonet, o Procurador Geral da República que se defendeu no púlpito durante o plenário.

Esta discussão surge durante uma campanha que, antes dos escândalos no STF, estava a ser marcada pelo pedido de 24 de milhões de dólares para a produção de um filme de Flávio Bolsonaro ao inevitável Vorcaro, que ainda enviava nos intervalos remessas de dinheiro para o sustento de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, a morar nos EUA.

Eduardo e Flávio, como é do domínio público, são filhos de Jair Bolsonaro, o ex-presidente da República.

E o segundo é até o principal opositor de Lula da Silva, que busca a reeleição para o Palácio do Planalto mas enfrenta más notícias nas sondagens por causa de uma investigação ao filho Fábio Luís, o Lulinha, que talvez nem conheça Vorcaro mas era sócio de Antônio Antunes, vigarista preso por desvios na Segurança Social.

Ou seja, Lula, como Bolsonaro, como Gonet, como Fux, como Kássio remetem ao referido Eli, juiz que liderou os israelitas por 40 anos segundo a Bíblia mas foi penalizado pelos atos ilícitos dos Hofni e Finéias. E por Deus, que o amaldiçoou por ser omisso e complacente com as faltas dos herdeiros.

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