Em frente à tela branca

Luís Castro Mendes

Diplomata e escritor

Publicado a

sur le vide papier que la blancheur défend

(Mallarmé, “Brise Marine”)

Estou sentado na frente do computador, que devolve à minha mente vagabunda o branco impoluto que o defende com rigor de qualquer sombra de escrita. Que posso fazer?

A poesia é muita, a acumular-se em livros novos sobre a minha secretária. Mas a dispersão dos meus interesses vê-se nos outros livros que rodeiam estes poemários: o notável livro sobre o Irão de Vali Nasr, o provocador calhamaço de Peter Sloterdijk sobre a Europa e o excelente dicionário da geração de 70 coordenado por Ana Maria Almeida Martins, Guilherme Oliveira Martins e Manuela Rego.

E é por trás de tudo isto que encontro dentro de mim o rumor incessante e sem rumo certo da memória, uma memória que a primavera veio desafiar.

Na novela Tonio Kroeger de Thomas Mann, um artista queixa-se com irritação da primavera, que vem desarrumar o seu espírito metódico e organizado e lhe torna impossível o trabalho.

Qualquer desculpa, mesmo meteorológica, é boa para justificar este estado de vazio por dentro, a que podemos chamar, se estivermos na moda, o writer’s block. O que é que temos afinal a dizer?

Há sempre este filme de terror, ao mesmo tempo filme cómico, que nos tem cabido viver nos últimos anos. Trump e Netanyhau admitiram que não tinham calculado nem previsto que o Irão pudesse encerrar o estreito que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, com as mais desastrosas consequências para a economia mundial. Custa a crer! E faz-nos lembrar, com orgulho dividido, o nosso Afonso de Albuquerque, melhor político e bem mais inteligente estratega, embora igualmente cruel.

E seria justo contar aqui o encontro de escritores na Lourinhã, organizado pelo incansável João Morales para a câmara daquela simpática vila, onde costumo (com as minhas netas) ir visitar dinossauros. Tive como companheiro de mesa o João Céu e Silva, cujas longas viagens com os nossos escritores constituem um importante contributo para o nosso melhor conhecimento de cada um deles. E para quem escreve pode ser libertador, ainda que difícil, falar para um público tão interessado e numeroso como o que se reuniu na biblioteca municipal da Lourinhã.

A nossa primavera veio hesitante, com arrependimentos de chuvas e um persistente frio noturno. Nós agradecemos cada manhã ou tarde de sol que nos venha lembrar que “o verão é a única estação”, como bem dizia Ruy Belo. E confiamos num verão por conhecer.

O bloqueio do escriba vem das múltiplas solicitações que ao mesmo tempo o tentam. Chamei a um livro meu Tentação da Prosa, porque nestes trabalhos da linguagem, a prosa, mesmo que seja mais trabalhosa nas suas mais altas expressões, é bem mais eficaz, para enfrentar o branco sobre branco que desafia quem escreve, do que a poesia. Se eu tivesse querido escrever poesia, esta tela do computador teria ficado irremediavelmente branca, incapaz de articular tanta tagarelice como aquela que eu desenvolvi neste texto, para meu descanso e espero que para vosso divertimento.

é que na terra há uma coisa terrível

cada um traz o seu motivo

mas acima de tudo o seu nada

ante a indiferente elegância do universo

(Raquel Nobre Guerra, Postes de luz para cães vadios)

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