Eles vão acabar com o futebol!

Pedro Lucas

Diretor das revistas 'Men's Health' e 'Women's Health'

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Este fim-de-semana termina a época futebolista e as atenções passam a estar definitivamente no Mundial 2026. Dos eleitos de Martínez ao corte de cabelo que CR7 usará na terra do tio Sam, do onze provável às probabilidades de trazer o caneco. Falar-se-á de tudo e mais alguma coisa, tal é a paixão global pelo futebol. Porém, proponho um olhar um pouco mais para a frente, uma reflexão sobre o seguinte: quem serão os adeptos de futebol daqui a vinte anos?

Fui recentemente a um estádio de futebol e dei por mim a fazer uma breve análise de terreno. Rapidamente concluí que todos os jovens ali presentes, não aguentavam mais de dez minutos - e se calhar já estou a ser generoso - sem mexer no telemóvel. E a conclusão, parece-me, é muito simples: os adultos que cresceram a ver futebol tal como ele é, continuarão a ver futebol para sempre. O hábito já está inerente, a devoção a um determinado clube foi quase que uma herança cultural, de pais para filhos, de bairro para bairro, de geração para geração. Agora, os atuais jovens e adolescentes dificilmente vão ter este sentimento de pertença e de experiência ao vivo. Hoje o ritual de “ir à bola” compete com um mundo completamente diferente e com centenas de outras experiências. Para esta geração em formação, 90 minutos de jogo é uma eternidade. Costumo chamar-lhes de “geração play”, tal é a impaciência que têm quando o botão play demora mais do que meio segundo a carregar um vídeo no YouTube ou numa rede social. Mais, esta geração está a ser formatada para conteúdos curtos, imediatos, por vezes descontextualizados. Conteúdos que envolvem, em que eles podem participar, e que são uma espécie de “açúcar virtual”, tal é a capacidade de os manter constantemente ligados. Portanto, o tempo médio de atenção é claramente menor e a oferta de entretenimento é praticamente infinita. Neste contexto, para esta nova geração, um jogo de futebol é um produto que tem os dias contados. Ultrapassado. Que ninguém aguenta. E a pergunta não é se os jovens gostam de futebol, muitos continuam a gostar, a pergunta é: quantos têm paciência para ver um jogo inteiro? Em vários países, nos quais incluo Portugal, já se observa um padrão comportamental: muitos jovens até acompanham futebol, têm o seu clube preferido porque isso também serve para partilhar nas redes sociais e pertencer a algo. Mas a forma como estão a ver futebol é simples: através de resumos dos golos nas redes sociais, highlights e momentos virais. O golo, o erro, a polémica, a celebração. O jogo e as emoções inerentes torna-se completamente secundário.

É aqui que entram experiências curiosas que estão a nascer fora do futebol tradicional. A Kings League, criada por Gerard Piqué, é talvez o exemplo mais evidente. Os jogos são mais curtos, as regras mudam ao longo da partida, existem momentos especiais que alteram o jogo, e muitos participantes são criadores digitais conhecidos do público jovem. Não é apenas futebol, é um espetáculo híbrido entre competição, streaming e entretenimento.

O mais interessante é que grande parte do público que segue este formato não vem necessariamente do futebol tradicional. Chega através de streamers, de redes sociais, de uma lógica de conteúdo pensada desde o início para o ambiente digital. O futebol já não é apenas o jogo, é o ecossistema de conteúdo à volta dele.

Os grandes campeonatos desportivos já perceberam isso. A Premier League, a NBA e a NFL investem cada vez mais em formatos curtos, em vídeos desenhados para redes sociais, em experiências digitais paralelas ao jogo. Não é apenas marketing, é sobrevivência. E nem o futebol parece ser eterno.

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