Os números são eloquentes: nas eleições inglesas de 7 de Maio, com cerca de 5000 lugares de administração local em disputa, o Reform Party, o partido nacionalista popular de Nigel Farage, ficou em primeiro. Tinha 2 lugares e ganhou 1453. A seguir vieram os trabalhistas, do primeiro-ministro Keir Starmer, que perderam 1496 lugares e ficaram com 1068. Depois os liberais-democratas, que ganharam 155 lugares e ficaram com 844. Atrás deles os conservadores, que perderam 563 e ficaram com 801. E em quinto lugar, os Verdes, que ganharam 441 lugares, ficando com 587. Sobraram ainda 212 lugares para independentes. Deste quadro, a primeira coisa que ressalta é o fim aparente do bipartidarismo Trabalhistas-Conservadores (geralmente com uma pequena representação de terceiros partidos minoritários) e o alvor de um multipartidarismo a cinco. Embora para a derrota dos trabalhistas tenha contribuído a votação nos “ecopopulistas” (para usar a definição do próprio Zack Polanski, líder dos Verdes), o resultado significa um claro desastre para a Esquerda, para a esquerda trabalhista de Keir Starmer; e um grande sucesso para a Direita, para a direita nacional-popular do Reform Party, de Nigel Farage, um dos rostos do Brexit. Mas, mais importante, será o possível fim do bipartidarismo inglês, entre conservadores (Tories) e trabalhistas (Labour) e a passagem para um multipartidarismo com cinco partidos principais: o Reform UK, o maior partido; o Labour, em segundo lugar; os Liberais-Democratas, em terceiro; os Tories, em quarto; e em quinto, os Verdes. O bipartidarismo conservadores-trabalhistas (Tories-Labour) veio sobrepôr-se, há mais ou menos um século, ao clássico bipartidarismo inglês conservadores-liberais (Tories-Whigs). A razão principal do voto de 7 de Maio é já um clássico recente: a crítica dos eleitores à imigração ilegal e à situação económica, com impostos altos e baixo crescimento. No fundo, é aquilo que, nos últimos anos, tem tornado os valores identitários nacionais uma referência decisiva para voto em Farage e no Reform. Farage, que declarou abandonar a política depois do sucesso do Brexit, fundou o Reform Party em 2018, com Catherine Blaiklock, que já tinha estado com ele no Brexit Party. O Reform tem alas regionais, como o Reform Party Scotland e o Reform UK Wales. Por agora, tem apenas 8 deputados em 650 no parlamento de Westminster, 17 em 129 no parlamento escocês, e 34 em 96 no parlamento do País de Gales. Conforme profusamente assinalado pelos media de referência, os grandes ganhos do Reform deram-se nas regiões mais atingidas pela crise económica, com grande número de velhos e reformados e predominância de votantes menos instruídos – o equivalente britânico aos “deploráveis”, de Hillary Clinton. Já a subida dos “ecopopulistas”, dos Verdes de Polanski, verificou-se nos círculos com uma maior percentagem de jovens educados e de eleitores muçulmanos. A onda vitoriosa de Farage já se vislumbrava na eleição parlamentar de 2024, onde, apesar do bipartidarismo, o Reform conseguiu mais de quatro milhões de votos, isto é, 14% do voto popular – que, pelas voltas do sistema britânico, se traduziram em 5 lugares (enquanto o Labour, com 34%, ganhava 412, os conservadores, com 24%, 121, e os liberais democratas, com 12%, 72). Curiosidades e perplexidades de um sistema eleitoral que, ao que tudo leva a crer, estará a acabar.