Educação: uma missão impossível?

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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Terminou um ano letivo, começou um novo e houve algo que não parece ter ido de férias: qualquer assunto que se relacione com o Ministério da Educação é, desde o início do verão, alvo de crítica. Depois do problema com os exames nacionais, parece que o acesso ao Ensino Superior decorreu sem tragédias de maior – aliás, houve até um aumento de 13,9% no número de alunos colocados na 1.ª fase, em relação ao ano anterior, e o número de vagas disponíveis para a 2.ª também é maior. Claro que as semanas de apresentações, praxes e arraiais ajuda sempre a acalmar os ânimos, mas certo é que a poeira parece ter assentado e temos mais uns quantos milhares de jovens a perseguir os seus sonhos, depois de se prepararem afincadamente durante 12 anos.

Mas agora, como já sabíamos, temos o arranque do ano escolar e, naturalmente, mais problemas: primeiro foram os alunos que não tinham vaga aquando do início do ano letivo – talvez seja importante referir que 134 deles só fizeram o pedido na semana passada, por exemplo –, algo que foi, entretanto, resolvido depois de Fernando Alexandre chamar os diretores das escolas em causa para uma conversa. Afinal, o problema podia nem ter existido porque na grande maioria dos casos foi possível sanar a questão com o aumento do número de alunos por turma, até ao máximo de 30, previsto pela lei que já existe há anos.

Naturalmente que esta solução também levantou um coro de críticas – mas talvez fosse importante recuarmos ao momento em que decidimos ter mega agrupamentos escolares para criticarmos com todo o contexto – ainda que Portugal esteja, para já, perfeitamente alinhado com a média da OCDE (e até com o Reino Unido, onde os resultados do PISA são bons!) no que à quantidade de alunos por sala de aula diz respeito.

"Mas agora, como já sabíamos, temos o arranque do ano escolar e, naturalmente, mais problemas: primeiro foram os alunos que não tinham vaga aquando do início do ano letivo – talvez seja importante referir que 134 deles só fizeram o pedido na semana passada, por exemplo (...)."
"Mas agora, como já sabíamos, temos o arranque do ano escolar e, naturalmente, mais problemas: primeiro foram os alunos que não tinham vaga aquando do início do ano letivo – talvez seja importante referir que 134 deles só fizeram o pedido na semana passada, por exemplo (...)." FOTO: Artur Machado

Depois, há ainda o facto de cerca de 70 mil alunos começarem o ano sem docentes para todas as disciplinas. Um número claramente elevado e preocupante, mas significativamente abaixo dos 140 mil que foram registados no ano passado – e os dados são das associações de professores e não do ministério. Em 2016, foram mais de 80 mil e em 2024 cerca de 100 mil, só para termos de comparação. O Ministério da Educação anunciou que estava a colocar mais professores, admitindo a lentidão do processo – mas mudar processos é algo que também desagrada neste país – e, porque a Lei de Murphy existe, novo problema. Mais de dois mil professores apresentaram baixa médica na semana passada, aquela que antecede, precisamente, o arranque do ano letivo na maior parte das escolas. Um número que é justificado pela Fenprof e pela FNE pelo envelhecimento do corpo docente nacional…

A verdade é que a Educação em Portugal já viu melhores dias – os resultados do PISA mostram isso mesmo. O modelo está desfasado da realidade, os alunos de hoje são profundamente diferentes dos de há 10, 20 e 30 anos, e acreditar que tudo poderia ficar igual é uma falácia. Os professores continuam a ser mal pagos, o sistema de avaliação dos docentes é uma piada e profundamente injusto para os milhares de professores excecionais que existem; os docentes sofrem com a constante crítica de pais e encarregados de educação que acreditam genuinamente que sabem ensinar melhor do que as pessoas que têm os estudos e a experiência…

A sociedade alterou-se profundamente. Nós alterámo-nos profundamente. O mundo alterou-se e altera-se profunda e rapidamente a cada dia que passa.

A sociedade alterou-se profundamente. Nós alterámo-nos profundamente. A Educação precisa, por isso e naturalmente, de se alterar.”

A Educação precisa, por isso e naturalmente, de se alterar. Mas sempre que se tenta mexer nela com reformas estruturadas, sérias e, acima de tudo, necessárias, parece que o mundo vai acabar – sim, o que aconteceu nos exames não devia ter acontecido, mas a verdade é que a alteração tinha de ser feita. De forma diferente? Talvez. Mas para o ano corre melhor.

É claro que é assustador mudar hábitos de décadas. É claro que é assustador mudar sistemas, modelos, formas de ensino, dinâmicas, colocações, statu quo. É claro que é assustador ver o mundo que conhecemos a transformar-se em algo que é só dúvida. Mas se os professores, se os pais, se todos, enquanto comunidade, não estivermos dispostos a isso, como é que conseguiremos ter um sistema melhor, uma Educação melhor, um futuro melhor?

Nem tudo o que é mudança é mau. Nem tudo o que é feito de forma “errada” está condenado ao fracasso. Sobretudo se todos nos juntarmos pelo mesmo propósito. Ontem assinalámos o aniversário do Serviço Nacional de Saúde com desesperança – Constantino Sakellarides diz mesmo que este está em “cuidados paliativos. Queiramos celebrar a Educação com esperança. Falemos menos, façamos a nossa parte e deixemos trabalhar quem tem pela frente a tarefa hercúlea de mudar um sistema que está igual há 50 anos, para que não transformemos a Educação numa missão impossível.

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