Em 2011, o Ministro da Educação, Nuno Crato, afirmou que o Ministério era “uma máquina gigantesca que se acha dona da Educação em Portugal. Eu quero acabar com isso”. E, na verdade, durante o período em que Nuno Crato foi ministro, que correspondeu ao período de intervenção da Troika, desapareceram quase três mil estabelecimentos escolares, aumentou-se o número de alunos por turma, cortaram-se apoios educativos, incluindo na educação especial, e retiraram-se 30.000 professores das escolas. Detenhamo-nos neste último ponto. Quando já era previsível, atendendo ao perfil etário dos professores, que num futuro próximo haveria falta de docentes por causa das saídas para a reforma, o Ministério tirou do sistema dezenas de milhares de professores, essencialmente contratados, ou seja, os mais jovens. Estes professores foram até convidados a emigrar pelo Primeiro-Ministro Passos Coelho.Em 2016 começou a reversão destas medidas, sendo que entre 2015 e 2023 o orçamento de Estado para a educação reforçou-se em 44%, colocaram-se mais 9000 professores nas escolas, aumentou-se o número de assistentes operacionais, de psicólogos e de outros profissionais (terapeutas da fala, animadores sociais e educadores sociais), foi reduzido o número de alunos por turma, abriram-se cerca de quinhentas salas de educação pré-escolar na rede pública e reforçou-se o investimento na educação inclusiva. E, apesar da questão da recuperação do tempo de serviço, que prejudicou de forma clara a relação de confiança entre os professores e o Governo do PS, a verdade é que ocorreu uma recuperação parcial em 2019, reduziu-se o prazo necessário para a vinculação de cinco para três anos, criou-se o procedimento de vinculação dinâmica para desprecarizar milhares de docentes, além de vários momentos de vinculação extraordinária, através dos quais se integraram na carreira mais de 22.500 professores contratados e da redução das distâncias das zonas pedagógicas.E o atual Governo? Começou por negociar com os professores a recuperação do restante tempo de serviço – e bem. Mas isso não pode justificar nem encobrir outras opções que estão a ser tomadas, quer nas escolas, quer nos serviços do Ministério da Educação. Foi criada a Agência para a Gestão do Sistema Educativo e extintos vários serviços: o Instituto de Gestão Financeira da Educação, a Direção-Geral da Administração Escolar e a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares. Claro que há sempre melhorias gestionárias que se podem introduzir, mas a perda de conhecimentos e de experiência acumulada que estas alterações vieram provocar, além da desestabilização inerente, podem vir a custar muito caro ao sistema educativo, em especial, à escola pública. Sintomaticamente, nunca houve tantos alunos sem aulas – o número é incerto por incapacidade (ou desinteresse) do Ministro da Educação de fazer um apuramento rigoroso, depois de ter apresentado dados manifestamente errados -, e há cerca de menos 10% de alunos a concluir o ensino secundário e a ingressar no ensino superior. Se acrescentarmos a revisão do estatuto da carreira docente em curso que vai tornar menos atrativa a profissão de professor e um conjunto de decisões profundamente ideológicas, como as alterações à disciplina de cidadania e a eliminação da obra de José Saramago da lista de leituras obrigatórias, parece que a promessa de Nuno Crato está, finalmente, a ser cumprida.