Portugal e, certamente, outros países vão vivendo numa perigosa ambivalência.Por um lado, as notícias das guerras assolam o nosso quotidiano, as imagens são devastadoras, a fragilidade da vida humana é-nos exibida sem pudor.Por outro, os poderes públicos parecem querer conduzir-nos para um certo torpor, para uma sensação de normalidade, como se nada estivesse a mudar e, mais preocupante, como se nada do que vemos e do que podemos prever pudesse inexoravelmente alterar as nossas vidas.Ora, estávamos todos nós embalados entre o mais humanitário amor ao próximo e a letárgica normalidade, quando o FMI nos veio chamar à realidade.De forma simples, o FMI veio dizer-nos que estamos a caminho de viver, por um longo período, em economia de guerra.As projecções são meridianas.Além da queda do PIB nos países em guerra, o FMI vem dizer-nos: os deficits orçamentais e a dívida pública vão aumentar.E, traduzido para linguagem corrente, diz, simplesmente, que o dinheiro não chega para tudo. E, como não chega para tudo, antecipa cortes nas despesas sociais e nas despesas com Saúde e com Educação. E cortes significativos que podem alcançar 25% da despesa actual.A contrapartida será um significativo aumento dos encargos com Defesa.O que é preocupante é que nada disto é discutido com a serenidade, a profundidade, a transparência e o rigor que a magnitude do tema exige.Às várias crises que temos vivido, e superado, acresce agora uma mudança de modelo, mudança que ninguém parece querer assumir.Os cidadãos merecem que os responsáveis formulem e lhes apresentem visões de longo prazo que incorporem as dificuldades e os riscos já conhecidos.Os cidadãos precisam de saber, com transparência e rigor, como é que, no médio e longo prazos, os recursos disponíveis vão ser distribuídos.O que o FMI veio dizer, com aqueles valores, ou com outros, é que estamos a entrar num tempo novo. Tempo mais exigente e de menor abundância.Assumir, o mais cedo possível, que vivemos numa economia de guerra é defender a democracia. As “surpresas” que decorrerão de não o fazermos só darão espaço aos populistas.Este é um tempo de exigência.É um tempo de prever e prover. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico