E ouviu-se a Europa!

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Entre os corredores das Nações Unidas e o pulsar da geopolítica global, o mundo parece mover-se a um ritmo frenético de golpes teatrais e discursos habituais. Assistimos à debandada em massa de delegados na Assembleia-Geral da ONU quando Benjamin Netanyahu tomou a palavra, escutámos as advertências de António Guterres e testemunhámos o já tradicional momentum da intervenção presidencial americana – prontamente contrariado pelas posições do Irão.

Fora da ONU, a coreografia internacional mantém-se intensa: a receção oficial da liderança chinesa por Washington ou a presença do papa em França e o pós-visita ilustram este xadrez; ainda na Europa, os sinais são mistos. A vitória dos sociais-democratas na Suécia surge como um marco de resistência num tabuleiro onde a extrema-direita volta a fixar terreno, desta vez com avanços históricos na Alemanha. Ao mesmo tempo, o Reino Unido continua enredado na complexa gestão das suas próprias tensões internas de fragmentação nacional.

Aqui bem perto, em Espanha, a crise política agudiza-se a tal ponto que figuras históricas como Felipe González admitem publicamente o seu distanciamento face ao PSOE de Pedro Sánchez. Cruzando o Atlântico, Donald Trump regressa ao seu habitual tom populista de campanha, acenando com incentivos financeiros e retórica polarizadora para as eleições. E, no Brasil, o país suspira em clima de polarização à espera de saber o rumo político que definirá o seu futuro próximo.

No meio de todo este ruído global – e sem sequer detalhar o desgaste contínuo das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente –, a atualidade portuguesa parece por vezes consumida pelo folclore mediático em torno do futebol, personificado no triângulo de CR7, Jorge Jesus e Pedro Proença. É precisamente por isso que se torna refrescante, e profundamente necessário, conseguir finalmente ouvir a voz da Europa sobre o que realmente importa para o futuro comum.

Graças à liderança de Ursula von der Leyen e Roberta Metsola, a União Europeia conseguiu marcar uma posição política de enorme relevância internacional. A proposta de criação de um estatuto inédito de "membro associado" – dirigido inicialmente ao Canadá e com perspetivas de extensão à Austrália e Nova Zelândia – representa uma autêntica pedrada no charco geoestratégica.

Embora possa parecer distante do dia a dia imediato dos cidadãos, esta medida desenha o nosso amanhã. Do ponto de vista puramente económico, significa alargar o mercado comum a mais de 75 milhões de consumidores com elevado poder de compra. Contudo, o impacto vai muito além das trocas comerciais: garante a continuidade da União em frentes vitais como a segurança, a defesa, a autonomia energética e a soberania tecnológica.

Num momento em que os grandes blocos económicos se preparavam para isolar ou dividir a influência do Velho Continente, esta estratégia é um sinal inequívoco de vitalidade. Mesmo enfrentando crises e divergências internas profundas entre os seus Estados-membros, a dupla feminina à frente das instituições europeias provou ser eficaz. Conseguiram puxar a Europa para a frente do pelotão global e fazer ouvir a sua voz pelos melhores motivos.

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