Há na nossa sociedade uma passividade, um conformismo, que tenho profunda dificuldade em compreender: o tratamento que damos às pessoas mais velhas.
Deu-se a notícia, muito en passant, de que, apenas em 2025, a PSP registou mais de 1800 crimes de violência doméstica contra pessoas idosas. Abusos físicos, verbais, emocionais, económicos, abandono, filhos contra pais... Foi assim uma coisa dita para “assinalar” o “Dia Internacional das Pessoas Idosas”. Lemos, ficámos muito compadecidos e a vida continuou.
Isto tudo é muito, muito triste; é um buraco enorme no estômago da nossa sociedade, que nos deveria deixar sem ar. Fosse a violência contra as crianças, as mulheres ou os animais – sim, também vou comparar – e ninguém calava.
O que torna uma sociedade assim tão doente? Os valores que idolatramos? Produtividade, beleza, sucesso...? Queremos corpos que não envelheçam, pessoas sempre disponíveis, sempre autónomas, empresas que cresçam, que suba o PIB, desça a dívida... E achamos que os idosos empatam e prejudicam isto tudo. Só se fala, aliás, da “Europa profundamente envelhecida”, como causa de todos os males. Os idosos aparecem como sorvedouros passivos de uma sociedade que se esvai. Mais parasitas do que os sabidões que descobriram a forma de enganar o Estado (com uma piscadela de olho!). Esquecemos que os mais velhos têm uma vida de trabalho sobre os ombros, e poucos contaram com ajuda pública: nem sequer equacionavam alternativas ao trabalho ou à dedicação ao outro.
Depois, têm sido os grandes esquecidos dos ativismos. Por exemplo, desde a Convenção dos Direitos da Criança, estas foram colocadas no centro do universo. Mas elas, um dia, serão inevitavelmente adultos, e mais tarde idosos, o fundo da cadeia alimentar. As outras agendas (todas elas válidas), como a luta pela igualdade de género, contra o racismo, pelos direitos dos migrantes, da população LGBTQIA+, dos animais, da natureza... deixaram as pessoas idosas de fora. Não é uma causa apelativa. Poucas são bonitas, muitas já não são “funcionais”, e quase todas demoram muito tempo a atravessar a passadeira.
A nossa sociedade ocidental devia envergonhar-nos, perante sociedades como as africanas, em que se acredita que “quando um velho morre, é toda uma biblioteca que arde”. Que privilégio é, aí, conviver com o ancião, essa imensidão de sabedoria vivida. Mas entre nós falta esse gesto de lhes pedir a bênção e de querer beber dessa riqueza profunda. Ao mesmo tempo, a velha frase “cresce e aparece” passou a ser tabu.
Idolatrar a juventude enquanto se espezinha a velhice é tão triste quanto ridículo, porque significa pisar as histórias que moldaram o que somos e, ao mesmo tempo, escarnecer do destino inevitável que nos espera. Não se perceber isto é, de facto, incompreensível.