Treine forte. Jogue com alma. Vença com honra. Anónimo (Não desconheço que, para mais sendo mulher, gostar de futebol como gosto é um mistério para muitos. Sucede que nem tudo na vida podem ser assuntos seríssimos intelectualmente e este tem a virtualidade de mobilizar o que muitas vezes nos falta no dia-a-dia: o entusiasmo e a capacidade de nos emocionarmos com algo simples. Gosto de pensar que pode ser saudável, afastada que estou – e sempre estaria, por feitio e princípios - dos extremismos. Claro que no futebol, como em todo o lado, há um lado mais sombrio, de corrupção e compadrios, bem como o facto de, levada a atenção ao extremo, nos desviar de assuntos que mereceriam a nossa mobilização. Gostar de futebol não pode implicar, como tal, alienação do que se passa quer em Portugal, quer no mundo, principalmente quando este último se tornou um local demasiado perigoso para frequentar. Dito isto, ainda assim e entre nós, como nenhum outro desporto, o facto é que os respectivos clubes do nosso coração, no meu caso verde e branco, nos dão muito mais alegrias do que os nossos governantes, estejam eles no Governo, estejam no Poder Local. Sem esquecer o demais, o futebol pode e deve servir de complemento à nossa via quotidiana, assim como, por exemplo, a cultura.)Sportinguista confessa e convicta, foi com grande entusiasmo que vi o Sporting Clube de Portugal vencer nas últimas jornadas, superando-se depois de um período mais negro. No mesmo dia que o Futebol Clube do Porto celebrou o seu campeonato, o Sporting comtemplou—nos contra o Gil Vicente com uma primeira parte superlativa (a fazer pensar que, noutras circunstâncias poderíamos, de facto, ter sido campeões nacionais...) e com um segundo tempo de verdadeiro controlo, muito diferente de outras exibições que vimos, com natural tristeza. Foi uma digníssima despedida de dois jogadores que, lá está, honraram sempre o emblema que envergaram e cuja lealdade, ao contrário do que parece suceder noutros clubes, parece inquestionável: Morita e Quenda. É certo que não ganhámos o campeonato. Declare-se a vitória aos vencedores que ontem se souberam portar com muito mais compostura do que há duas semanas atrás, demonstrando-se que, mais importante do que saber perder, é saber ganhar, o que nem sempre foi o caso.Contudo, ao contrário de outros meus companheiros de clube, não vejo esta época como um desastre. Com um plantel curto e, aqui e apenas aqui, divergindo do meu Presidente, com demasiadas lesões, digam o que disserem, fizemos uma brilhante campanha na Champions, assegurámos o segundo lugar com o melhor ataque da Liga e novo acesso à Liga dos Campeões e ainda podemos (diria até que temos a obrigação de...) ganhar a Taça de Portugal. Tudo isto, perante uma sequência infernal de jogos, enquanto os nossos adversários tinham semanas limpas, o que, associado às lesões já referidas, levaram a que a competição não ocorresse em exacta igualdade de circunstâncias. Os desaires, inesperados somente para alguns, trouxeram críticas, como é natural mas não levaram o mais importante: o apoio à equipa num momento difícil. Para mim, ser do Sporting Clube de Portugal, é diferente de ser outros clubes, desde logo pelo valor dos princípios porque se pauta a instituição mas, também, pela extrema capacidade de sofrimento e de devoção dos seus adeptos.Fale-se na capacidade de regeneração da equipa, afastem-se as críticas que foram feitas a Rui Borges e à Direcção. Mas não nos fiquemos por aqui porque o Clube é muito maior do quem ocupa lugares, sejam eles quais forem, a cada momento.Depois do último fim-de-semana, os meus aplausos vão essencialmente para os que nunca deixam de estar lá. Para os que resistem, mesmo perante as derrotas e, recuperados, lá estão no apoio no jogo seguinte, como se de um novo capítulo de tratasse e esquecendo qualquer triste episódio anterior. Ser do Sporting é também isto. Se calhar, é mesmo principalmente isto. No que toca a desporto, um amor como nenhum noutro.Agora, venha de lá a Taça de Portugal, se faz favor.