Duas entrevistas

Luís Parreirão

Advogado e gestor

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Li recentemente duas entrevistas que, pela sua acutilância e pela clareza das afirmações dos entrevistados, são um aguilhão para a nossa consciência e um desafio para a mudança.

Primeiro as afirmações de Carlos Tavares, antigo patrão da indústria automóvel. Retenha-se o seguinte: “Portugal é o país do não-rigor”; “em Portugal há falta de vontade de criação de riqueza”; “temos de saber onde é que Portugal quer estar em 2050”.

Numa abordagem de um cidadão da fronteira Leste da Europa comunitária, o polaco Rafal Brzoska, em entrevista recente, perguntado sobre o que é que fazia da Polónia um país de empreendedores responde de forma lapidar: “Um imperativo de recuperar o tempo perdido; em segundo lugar o trabalho; em terceiro lugar a ambição e, em quarto, a Educação.”

E, sobre a Europa, a acutilância é, ainda, mais forte.

“A Europa atravessa uma crise de liderança. Não sei se queremos ser uma potência de Inteligência Artificial, uma potência energética, uma potência militar, ou se nos queremos distinguir pela qualidade de vida.”

E é assim que dois homens que, com toda a probabilidade, não se conhecerão, acabam a dizer-nos, no essencial, o mesmo.

A dizer-nos para não nos desculparmos, para assumirmos, cada um e a seu modo, as nossas responsabilidades.

Que é necessário trabalho e rigor e, sobretudo, que é necessário ter uma visão, um objectivo, e persegui-lo.

Referir que Portugal tem de definir o que quer ser em 2050, ou que a Europa precisa de ter uma visão que a oriente, são apenas duas faces da mesma moeda.

É muito preocupante que sintamos que a Europa já viveu épocas, aliás recentes, de clarividência e desígnio estratégico e que Portugal talvez esteja a desperdiçar uma oportunidade de criar uma cultura de rigor e de produtividade.

Mas, para tanto, seremos capazes de reter o talento que produzimos?

Seremos capazes de reter os mais capazes e os mais saudavelmente ambiciosos?

Seremos capazes de estimular a poupança e de não a converter em receita fiscal?

Teremos a capacidade de gerar emprego qualificado e bem remunerado?

Teremos a capacidade de assegurar a igualdade de oportunidades de género?

E a Europa será uma ficção, um objectivo, um termo de comparação e um paradigma de ambição, ou, tão só, uma miragem?

Não, não nos podemos desculpar ou fazer de conta.

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