Em agosto de 1981, a Apple lançou um famoso anúncio de página inteira no diário The Wall Street Journal, em tom de provocação, intitulado “Bem-vinda, IBM. A sério.” Naturalmente, Steve Jobs não estava apenas a dar as boas-vindas, mas a ironizar com a entrada tardia da gigante IBM no mercado dos computadores pessoais, que ignorou durante muito tempo em prol dos grandes sistemas para empresas.Quarenta anos depois, podemos dizer que um cenário semelhante se replica no setor da indústria da Defesa, onde se assiste a uma grande transformação na própria forma de fazer a guerra, como os acontecimentos na Ucrânia nos têm mostrado, quase diariamente, ao longo dos últimos quatro anos. O engenho e agilidade dos ucranianos para fazer face à agressão russa numa grande desproporção de meios, reinventando formas e armas de defesa, tornaram-se um exemplo claro de guerra moderna. Mas, tal como a IBM naquele primeiro impulso dos computadores pessoais, ainda há na indústria quem demore a mudar o chip.Foi o que demonstrou, de forma particularmente desastrada, o CEO da gigante alemã Rheinmetall. Numa entrevista à revista The Atlantic, Armin Papperger desvalorizou a indústria de drones ucraniana, reduzindo-a a expressões como “Legos de montar” ou “donas de casa com impressoras 3D” para menorizar a comparação com a tecnologia dos grandes fabricantes.A reação foi tão imediata quanto intensa. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky respondeu com ironia, afirmando que “qualquer dona de casa ucraniana poderia ser CEO da Rheinmetall”. Dirigentes militares destacaram os números que provam a eficácia dos drones ucranianos, que já destruíram mais de 11 mil tanques russos e provocaram 90% das baixas do inimigo. E nas redes sociais a polémica ganhou vida própria, impulsionada pela hashtag #madebyhousewives.O conflito na Ucrânia acelerou uma transformação em curso. Drones baratos, produção descentralizada e ciclos rápidos de adaptação passaram a ter um peso decisivo, enquanto os sistemas pesados e ultradispendiosos deixaram de garantir uma vantagem automática no palco de batalha. Pressionada pela necessidade, a Ucrânia adaptou-se de forma admirável, desenvolvendo um ecossistema ágil, capaz de testar soluções em tempo real e ajustar-se rapidamente ao terreno. Prova disso é o facto de os próprios EUA terem pedido a ajuda ucraniana para lidar com os drones iranianos no atual conflito no Médio Oriente, enquanto parte da indústria continua presa a processos longos e contratos rígidos.Ao falar com aparente desdém do heroico esforço ucraniano e de uma nova indústria, que já redefine o campo de batalha, Papperger arriscou um sério dano de reputação, obrigando a própria Rheinmetall a retratar-se nas redes sociais e a reconhecer que “a força inovadora e o espírito de luta do povo ucraniano são uma fonte de inspiração para todos”.Se a invasão russa ainda não tinha deixado isso claro, fica mais uma lição de que o melhor talvez seja mesmo não subestimar o papel das “donas de casa” ucranianas.