Dois anos à espera de ver o Luís trabalhar

Mariana Leitão

Presidente da Iniciativa Liberal

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Há um talento que Luís Montenegro cultivou ao longo de dois anos: falar muito sem dizer nada de substancial, anunciar muito sem entregar quase nada e ainda pedir aplausos. Não é fácil vender como “reforma histórica” aquilo que é, na prática, gestão corrente.

A celebração dos dois anos diz tudo. Houve bolo em São Bento, fotografia de família, ministros em digressão pelo país em modo campanha e vídeos afinados para redes sociais. A coroar, um artigo de opinião com uma frase que é uma obra de retórica: “Estabilidade sem ambição seria um desperdício imperdoável. Ambição sem estabilidade seria uma imprudência infantil.” Ou seja, não se pode fazer muito por falta de estabilidade, mas far-se-á tudo quando ela chegar. Como nunca chega, o argumento renova-se, num álibi cuidadosamente montado.

Façamos o exercício simples que o Governo recusa fazer.

Na Saúde, prometeu acabar com as listas de espera até 2025 e dar médico de família a todos os portugueses. Dois anos depois, o número de utentes à espera de primeira consulta cresceu 25,6%. As urgências encerram com uma regularidade que deixou de surpreender, a Obstetrícia colapsou em encerramentos rotativos, partos em ambulâncias e grávidas a percorrer dezenas de quilómetros à procura de um hospital aberto.

Na habitação, os preços subiram 27% desde a tomada de posse. As medidas de apoio aos jovens empurraram a procura sem tocar na oferta, inflacionando ainda mais o mercado. Ajudou-se os jovens a entrar num mercado que o próprio Governo tornou mais caro.

Na reforma laboral, oito meses de negociações produziram 76 artigos consensualizados em mais de 50 reuniões. Ao ritmo actual, o Código do Trabalho ficará pronto algures entre a próxima legislatura e o regresso do cometa de Halley.

Na fiscalidade, o Governo apresenta descidas de IRS como prova de reformismo. Mas há uma pergunta que prefere não responder: o dinheiro que ficou no bolso chegou sequer para pagar o que ficou mais caro? O cabaz alimentar está 35,5% mais caro do que em 2022 e os combustíveis atingiram os valores mais altos desde a crise da Ucrânia. Portugal tem sobre os combustíveis uma carga fiscal 9% e 4% acima da média europeia na gasolina, num país 23% menos rico do que a média europeia. A descida do IRS não chega para pagar o aumento dos ovos.

O defeito estrutural deste Executivo é confundir comunicação com governação e parecer com ser. Um Governo que substitui reformas por anúncios de reformas não está a mudar o país, está a fazer propaganda. Um Governo que compra software para monitorizar jornalistas não está a defender a democracia, está a gerir a narrativa. Um Governo que faz o balanço de dois anos sem aceitar uma única pergunta não está a prestar contas, está a encenar uma prestação de contas. Um Governo que passeia pelo Mercado do Bolhão rodeado de ministros e militantes não está a aproximar-se dos cidadãos, está a fazer campanha com dinheiro público.

Pediram-nos que deixássemos o Luís trabalhar. Deixámos. Ele trabalhou muito na festa de aniversário. Quanto ao resto, ainda estamos à espera.

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