Diz-se que o novo luxo é o tempo. E a boa educação?

Margarida Vaqueiro Lopes

Editora-Executiva do Diário de Notícias

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Andamos todos apressados: os últimos dados da sinistralidade rodoviária mostram isso mesmo. Um terço das mortes na estrada acontece devido a excesso de velocidade e 64% das infrações rodoviárias prendem-se com o mesmo motivo. Caminhamos apressados, de olhos postos no telefone para não perder pitada do que acontece do mundo; estamos em reuniões a responder a e-mails, em telefonemas a responder a mensagens. Sentamo-nos no sofá a ver uma série, mas continuamos a percorrer as redes sociais, como se concentrarmo-nos apenas numa tarefa nos fizesse perder algum momento do mundo que seja potencialmente fatal para a nossa vida (surpresa: não deverá haver momentos desses nas redes!).

Estamos em todo o lugar sem estar, na verdade, em lugar algum, porque a pressa nos fez, de alguma forma, deixar de querer estar presentes, e perdemos a capacidade de olhar para quem e para o que está à nossa volta.

Conseguimos sentir isso, diariamente, em várias situações, mas de forma ainda mais concreta nos aeroportos. As recentes dificuldades sentidas no de Lisboa, por exemplo, com a implementação dos novos sistemas de controlo de passageiros, voltaram a fazer notícia: horas de espera, seja à entrada, como à saída, penalizam as pessoas e aumentam exponencialmente os níveis de stress de quem vê os aviões a querer partir sem estarem ainda na porta de embarque. Ou de quem quer entrar no país para férias ou para regressar a casa e se vê em filas que nunca mais andam.

É – como, aliás, José Saramago tão bem descreve no seu Ensaio sobre a Cegueira – precisamente nestas alturas mais críticas, ou de mais stress, se quisermos, que se percebe de que é que as pessoas são realmente feitas. E o que se tem visto, neste quesito, não tem sido bonito: os níveis de tolerância estão absurdamente mais baixos, a agressividade mais violenta – há, aliás, vários estudos sobre isso e o DN já escreveu, não poucas vezes, sobre o fenómeno, que tem chão fértil para crescer nas redes sociais – e a educação foi-se perdendo.

Passa-se à frente nas filas porque “se tem pressa”, responde-se mal aos funcionários porque “se tem pressa”, ocupa-se um lugar que não nos pertence, coloca-se a mala no lugar que não nos é devido, empurra-se, puxa-se… tudo em nome de uma pressa que nem sequer faz sentido – pasme-se: os aviões geralmente não saem até todos os passageiros que fizeram check-in estarem sentados.

Na verdade, estamos todos cansados, irritados, frustrados e muito preocupados com aquilo que o mundo nos reserva. Temos visto guerras sem sentido a serem iniciadas, sentimos a pressão dos preços na nossa vida quotidiana e estamos profundamente assustados por estarmos a viver tempos que acreditávamos termos deixado nos livros de História.

Mas se há algo que esta nos ensina – se lermos com atenção esses mesmos livros – é que é precisamente em épocas de violência e de medo que é preciso trabalhar a empatia, a generosidade e a boa educação. Porque são elas que nos conseguirão manter unidos, combater a desinformação e os arautos da desgraça (e dessa violência gratuita) e garantir que continuamos a evoluir enquanto sociedade.

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