Diogo Lorena Machado. Arriscar a poesia

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Há livros que anunciam vozes singulares não porque essas vozes façam tábua-rasa da historicidade, mas, sobretudo, porque arrastam o passado dentro, um determinado passado. O facto é este: nos melhores casos, a grande poesia portuguesa do século XX e a que – muito mais rara – se tem vindo a publicar nestes primeiros 25 anos do XXI é sempre devedora da leitura e do eco que esse passado tem sobre quem se arrisca a escrever poemas numa época exausta. A nossa época.

Em bom rigor, quem assim considera a poesia - elo de elos, cadeia de transmissão, aprendizagem contínua – tem sempre a ganhar, uma vez que a herança se conjugará com o talento individual (di-lo Eliot) e dotará o aprendiz de uma sólida noção do risco que abraça.

“Não faças versos sobre acontecimentos”, escreveu Drummond. Mas se – falando hoje do livro de estreia de Diogo Lorena Machado – podemos aceitar que um dos riscos é escrever sobre acontecimentos (coisa que este livro de poemas soberanamente faz), não menos verdade é que, aos acontecimentos banais sobre que se debruça, Lorena Machado empresta uma consciência de linguagem que o protege de quedas no mais bacoco e estafado banal em poesia.

Quem tem perfeita memória do que é a poesia, como é o caso do autor deste belíssimo e exigente eu vinha para a vida e dão-me dias (Glaciar), e do que nela, como discurso, é o diálogo que o novo estabelece com o já feito, esse conquista, logo de início, uma posição de vantagem perante outros que se estreiam agora, ou que se estrearam há relativamente pouco tempo.

Há versos, imagens, efeitos melódicos, achados verbais que aproximam Lorena Machado de Ruy Belo, como o título da recolha, sem pejo, mais que sugere. Elenco versos que valem por si, isto é, que, mesmo quando reenviando para uma matriz reconhecível, são já vitórias do poeta novo sobre o idioma, enriquecendo-o: “ao passar apercebo o sol pousando no pão de um / pedinte. é tão cedo e o cedro tão antigo estende-se pela tarde e é noite e os jardins têm uso apurado as solidões concretas daninhas dos bancos” (p.139); “um casal de mãos muito dadas / duas gaivotas voando / sete setas atravessadas / o cais aproximando” (p.12); “o vento inclina a rua rouba o dia” (p.17); “esta descida que é / estar vivo e saber de gravidade que / nos diz que descemos” ; “não sou quase nada / e há tudo em todo o lado / estou parado sou / um cordeiro demasiado / contingente vergo o dia / ao meu pequeno bolso / e a vida é breve / dizia” (p.31); “uma senhora investe / sobre a rua carregada / de sacos decidida a / chegar a casa e / não sei o que isso diz / sobre a rua ou / sobre a pátria mas / chegou sem ajuda” (p.39)…

Os exemplos de imagens onde o real concreto solicita deste poeta da observação um modo de transfigurar o que vê pela via mais sólida da construção de metáforas, de elipses, de rimas, numa dicção sóbria, irónica, por vezes com certa nostalgia (a infância, o pai, o avô); esses exemplos irradiam, são imensos – e bons. Há mesmo, em alguns momentos do livro onde, além da atenção prestada a efeitos fonomelódicos – assonâncias, aliterações, paronomásias – encontramos formas de ressemantizar as palavras, uma corrente surrealizante, uma espécie de listagem do absurdo onde, sem automatismo algum, mas com imensa sabedoria rítmica, o poema se transforma em flash, ou em sucessão de flashes, posto que o sujeito desejo, como diz aqui e ali, um “poema intempestivo”.

Leia-se a lição de plena invenção gramatical do poema que transcreverei, dos mais ousados do conjunto: “a esquina estreita a noite / clara calha ao longe / sobre acima uma figura / fala talvez eu possa inventá-la / mas a figueira não dará mais / fruto e já devorou todos em judeia / lá onde vi jesus jejuando / feito de nada / e jurei jamais deixar / três vezes deserto / o teu verbo tão limpo e claro / como uma bruma de alvorada / ainda tenho algures a alma / e quando quero creio / que o céu coberto me diz / que não acabas onde eu sofri / e se no fim eu vir a tua mão / pousar ó / tão no meu ombro / conhecerei a cruz mas / se me abandonaste / como saberei?” (pp. 72-73).

Este poema, como outros (sobretudo os longos, não tanto os mais breves, os quais, na verdade, poderiam dar corpo a outro tipo de livro), não é tanto sobre o “sagrado coração” do título em presença. É um poema sobre modos de ficcionar, nas palavras, uma realidade alheia – deus, o real, o homem, o poema? – que o poeta persegue e que, para a obter o leva a insistir nessa demanda de um verbo recriado, um verbo que muda, que é modo mutável: “a esquina estreita a noite”, ou, como num outro poema – dirigido contra o nosso tempo, o da “economia da utilidade” – imperativamente se diz que o poema é uma espécie de fogo do sentido – um plural sentido.

À intempestividade de uma arte que poderia falhar por excesso de ideal, de lirismo, de obediência àquela tradição que Lorena Machado sabe ser a sua, nunca vemos – ainda que num ou noutro poema possa ver-se ainda uma oficina a trabalhar-se, a suscitar uma nova forma de atenção – isso em que muita da poesia portuguesa caiu durante muito tempo: uma poesia sem imaginação.

Diogo Lorena Machado, que teve em Álvaro Manuel Machado, seu avô, o primeiro mestre, pode glosar Florbela, reclamar Wallace Stevens, parafrasear Ruy Belo e Cesariny, mas estamos perante um poeta, de facto. Isto é: alguém que confirmará. No seu próximo livro, o acerto de Jorge Reis-Sá, seu editor, que o descobriu.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.

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