Há sempre qualquer coisa de sebastiânico nas aparições públicas de Pedro Passos Coelho, por quem uma parte da direita continua a suspirar como se o país dependesse do seu antigo timoneiro para se realizar de corpo inteiro enquanto ideia de nação. O fenómeno encontrará provavelmente mais explicações ao nível da psicanálise coletiva do que em quaisquer indicadores político-económicos que aqueles quatro anos de governação com a troika tenham produzido, mas é bem real. E tão certo quanto a referência a D. Sebastião em dias de nevoeiro, num país carregado de saudosismos até à medula. Pelo que se pode apreciar, o papel agrada ao ex-primeiro-ministro, que cultiva essa aura no modo como gere as suas intervenções públicas. Raras e com estudado sentido de oportunidade, aguçando o apetite da audiência saudosa e aproveitando para reforçar esse estatuto de reserva moral a quem o país há de bater à porta um dia, quem sabe, esteja o Diabo à solta ou não.Desta vez, o cenário foi a apresentação de um livro sobre lideranças intermédias na Administração Pública. Mas o cenário político era bem mais vasto: a intervenção coincidiu com a paisagem de um País submerso entre cheias e derrocadas, e com a polémica nomeação de um enfermeiro para coordenar a Estrutura de Missão para as Energias Renováveis (EMER 2030) a espreitar como exemplo oportuno para um diagnóstico sobre os vícios do Estado.O discurso de Passos encaixou como uma luva. Denunciou a falha do Estado nas suas funções regulatórias como uma justificação para a falta de preparação face a eventos como os que assolaram o país nestas semanas; e carregou sobre concursos “viciados” e escolhas pouco transparentes que descredibilizam o Estado, com o caso da EMER a pairar sobre o atual Governo.Obviamente, o diagnóstico de Passos Coelho foi certeiro. Ao apontar esses vícios estruturais na Administração Pública, reforçou a imagem de estadista distante das pequenas lutas do dia a dia, a “autoridade moral” que intervém apenas quando entende que o essencial do país está em causa. Claro que essa consciência, hoje tão desperta, nem sempre esteve assim vigilante durante os seus anos de governação, que também eles tiveram as suas nomeações polémicas, como as 100 de última hora quando a Geringonça recebeu o aval para lhe suceder no Governo, mas sabemos como a memória (mesmo a coletiva) tende a ser seletiva.Menos vocal, mas efetiva foi a ministra do Ambiente, Graça Carvalho, que assumiu publicamente não ter tido conhecimento da nomeação e a mandou anular, traçando uma linha de exigência e responsabilidade política que a reafirma como uma boa referência deste Executivo. O controlo de danos, no entanto, só seria realmente efetivo se percebêssemos quem e o que falhou. Se este concurso foi, também ele, “viciado”, quem o viciou? E aí talvez a ministra tenha de avaliar se está devidamente acompanhada. Porque só um Estado competente, transparente e responsável pode resistir aos suspiros saudosistas de dias de nevoeiro.