Há um pequeno largo na Calçada da Glória por onde toda a gente passava sem dar por ele. Chama-se Largo da Oliveirinha e tem agora uma oliveira de 150 anos rodeada por 16 blocos de calcário. Um por cada pessoa que morreu às 6h00 da tarde de 3 de setembro de 2025.
O memorial é sóbrio, e ainda bem. Lisboa não precisa de monumentos ruidosos; precisa de um sítio onde possa estar calada. Mas um lugar de memória não substitui o que continua por fazer.
Um ano volvido, sabemos pouco. O relatório preliminar do GPIAAF falou de falhas e omissões na manutenção, de falta de formação, de supervisão que não existiu. O relatório final devia estar pronto no aniversário do acidente. Foi adiado para o final do primeiro trimestre de 2027. Ano e meio. Há razões técnicas, e não me cabe duvidar delas. Cabe-me dizer que o tempo da investigação e o tempo do luto não são o mesmo, e que quem espera não escolheu esperar.
Depois há as indemnizações, e aqui convém separar as coisas. Aos 24 feridos, a seguradora responde que a avaliação depende da estabilização clínica de cada um. É razoável: sem sequelas consolidadas não se mede o dano. Mas das 16 famílias que perderam alguém, só quatro fecharam acordo. Sete negoceiam. Uma foi para tribunal. Aí não há estabilização clínica nenhuma para aguardar: há 12 processos por fechar ao fim de um ano.
Dir-se-á que ainda não se apuraram responsabilidades. Não é argumento. A obrigação de indemnizar não espera pelo relatório do GPIAAF, nem por sentença. O seguro da Carris está acionado desde o primeiro dia, com cobertura até 50 milhões, e os quatro acordos já fechados provam-no. Se amanhã se apurar que a culpa é de terceiros, que a seguradora vá buscá-la a quem a tiver. Isso é um problema entre empresas. Não pode ser um problema das famílias.
Não escrevo isto para atribuir culpas. Escrevo-o porque há, neste caso, algo sagrado que está acima da Câmara, do Executivo, da oposição e de qualquer calendário eleitoral. Dezasseis pessoas morreram num transporte público de uma cidade que se orgulha de os ter. Eram de 15 nacionalidades. Entre elas, André Marques, o guarda-freio que fazia o seu trabalho, e quatro trabalhadores da Santa Casa que apanharam o ascensor como quem apanha um autocarro. Confiaram em nós.
O resto não é complicado, ainda que seja difícil: dizer o que se sabe quando se souber, e fechar a parte administrativa, as auditorias, os contratos e as responsabilidades internas, em vez de a manter suspensa à espera de 2027. A Justiça Criminal seguirá o seu curso, e é bom que siga. Mas a cidade tem obrigações que não dependem de um tribunal.
Lisboa sabe fazer isto. Fê-lo naquela tarde, quando vizinhos e desconhecidos correram para a Calçada antes das ambulâncias. Não houve ali partidos, nem cálculo. É essa Lisboa que a oliveira do Largo da Oliveirinha nos devia estar a lembrar: não a cidade que espera, mas a cidade que responde.