Desafortunados da História

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Portugal estreia-se amanhã (17 de junho) no Mundial de Futebol contra a República Democrática do Congo (RDC). Se a força de uma seleção nacional de futebol fosse proporcional à dimensão e aos recursos naturais de cada país, este seria um jogo quase impossível de vencer por Portugal. Mas, se o futebol refletisse a desgraça de um povo cuja riqueza tem sido a sua maior maldição, então a vitória seria fácil. É nesse paradoxo que vive o Congo.

Segundo maior país de África, a RDC é um dos territórios mais ricos do mundo em recursos naturais. Produz cerca de 70% do cobalto mundial, indispensável para baterias e eletrónica, e detém 35% das reservas globais de coltan, sem o qual não existiriam smartphones ou computadores. Somam-se diamantes, ouro, cobre, estanho, manganês e urânio – uma lista que faria inveja a qualquer potência industrial. Só que a RDC está entre os sete mais pobres países do mundo.

A riqueza não se limita ao subsolo. O país guarda metade da floresta tropical da África Central, a segunda maior do planeta. Os solos férteis e o clima poderiam fazer da RDC um dos grandes celeiros de África. O rio Congo, o segundo maior do mundo em volume de água, tem potencial hidroelétrico para iluminar o continente, embora as suas margens revelem a sombra profunda do sofrimento humano, que Tim Butcher narra em Rio de Sangue.

A sua abundância natural convive com uma história de violência e exploração. Entre 1885 e 1908, o território foi transformado na propriedade pessoal do rei Leopoldo II da Bélgica e administrado com brutalidade, por um dos regimes coloniais mais violentos da história moderna, tendo milhões de congoleses sido submetidos a trabalho forçado na extração de borracha e marfim, como evoca Mario Vargas Llosa em O Sonho do Celta. O escândalo internacional obrigou a Bélgica a assumir o controlo direto em 1908, criando o Congo Belga.

Quando se tornou independente, em 1960, o país não tinha um único oficial congolês no exército – os primeiros estavam a formar-se em Bruxelas – e a falta de quadros técnicos e administrativos era dramática. Seguiram-se décadas de instabilidade, ingerências estrangeiras e guerras internas pelo controlo das riquezas – uma história muito bem contada por David Van Reybrouck em Congo: une histoire. Hoje, apesar de possuir alguns dos recursos mais valiosos do planeta, mais de 70% da população vive com menos de 2 euros por dia, foge da guerrilha no leste do País e enfrenta surtos de ébola.

É o que muitos chamam de “maldição dos recursos”: países carregados de riquezas, mas empobrecidos pela exploração externa, a corrupção e a instabilidade. No caso do Congo, essa maldição tornou-se quase um destino trágico – a história de um povo terrivelmente rico e ricamente desgraçado.

Amanhã jogamos futebol contra eles. No relvado, as regras podem ser iguais. Mas fora dele é impossível não sentir que se trata de um confronto entre privilegiados e desafortunados da história.

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