É sabido que vivemos num período de grandes desafios, alguns mesmo existenciais para a Europa e, portanto, para Portugal.
Um primeiro, tem que ver com a guerra na Ucrânia. Do seu desfecho depende o futuro do projecto europeu, o qual pode ser posto em causa por uma derrota da Ucrânia ou, até mesmo, por um Armistício que, na prática, corresponda a uma quase rendição dos ucranianos, tal como Trump e Putin pretendem.
A Europa e Portugal têm de se empenhar no apoio à Ucrânia, mobilizando a opinião pública para a realização de esforços adicionais e procurando ampliar o número de países aliados do Verdadeiro Ocidente numa luta que oferece grandes dificuldades, inclusive no seio da própria Europa.
Um segundo, tem que ver com a guerra no Médio Oriente, que não afecta a Europa e Portugal de forma tão directa, mas que contribui para que se conclua da relevância de variáveis exógenas para a evolução da economia nacional.
Ambos os desafios condicionam a política orçamental europeia e, claro está, a política orçamental portuguesa.
Num contexto como o actual, o crescimento económico da Europa não será mais do que rastejante em 2026, podendo aumentar para 1,5-1,6%, em 2027, se os conselhos de Draghi sobre a reindustrialização da UE e uma maior coordenação da política de Segurança e de Defesa forem ouvidos pelas instâncias comunitárias e, naturalmente, pelos governos europeus.
Mas, será necessário injectar recursos financeiros na economia europeia, o que se apresentará sempre difícil de conciliar com um efectivo e apertado controlo da inflação.
E, em Portugal, ou dispomos, em 2026-2027, de recursos provenientes da UE e apostamos num incremento do investimento público e em incentivos fiscais para o investimento privado ou então dificilmente chegaremos à taxa de crescimento de 2% do PIB em 2027.
O terceiro desafio consiste no desenvolvimento económico, através de uma genuína aposta no planeamento estratégico, que é algo que não existe no nosso país há mais de 20 anos. Ainda existiu algo com algumas similitudes no tempo do ministro Valente de Oliveira, mas de então para cá não temos passado de projectos sectoriais que não obedecem a uma visão integrada e integradora a nível nacional.
O quarto desafio consiste em se vencer os primeiros três preservando um certo equilíbrio orçamental, que o mesmo é dizer, evitando uma grande derrapagem do défice orçamental e, ainda, da dívida pública.
Seria aceitável que se conseguisse manter o rácio dívida pública/PIB nos 90 a 92% em finais de 2027, cumprindo minimamente os objectivos de crescimento económico e de uma participação condigna no esforço de guerra ucraniano.
O quinto desafio seria o da manutenção da taxa de desemprego ao nível dos 5,8-6,0% até finais de 2027, conseguindo-se, simultaneamente, satisfazer as necessidades de oferta de mão-de-obra nos sectores mais carenciados.
Desafios como os dos sectores da Saúde, Educação e Habitação serão, também, importantes, mas dificilmente poderá haver uma melhoria significativa nos mesmos sem algum apoio complementar que viesse a ser coordenado com as instâncias comunitárias.
Finalmente, sou dos que defendem a possível utilidade de um Fundo Soberano que permita ao Estado intervir em sectores estratégicos da economia e da sociedade portuguesas, com criação de um mecanismo gerador de poupança adicional no nosso País, convertendo-se essa poupança adicional num instrumento de intervenção selectiva do Estado em sectores da maior relevância, designadamente em sectores básicos como o da Habitação, o da Defesa e na Reindustrialização da nossa economia.
Em resumo, ainda sou sensível a alguns valores genuinamente social-democratas no concernente à política económica. Quiçá uma limitação de espírito que remonta aos meus tempos de juventude.
Nem mais, nem menos…
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico