Tal como se esperava, a moção de censura do Chega foi chumbada no Parlamento, com os votos contra do PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal, Livre e PAN, e com as abstenções do PS, PCP, Bloco de Esquerda e Juntos pelo Povo. A favor, apenas o próprio Chega, cujos deputados encerraram a sessão com um apelo coletivo à demissão de Luís Neves.
O ministro da Administração Interna continua sob pressão e com a sua autoridade política fragilizada, mas o dia em São Bento não lhe correu mal. E isso aconteceu por três motivos.
O primeiro é que, ao longo da discussão parlamentar, não surgiram novos factos que agravassem a sua situação. No fim do dia, o que fica para o cidadão comum é a imagem de um diretor da Judiciária que geriu a instituição com excesso de informalidade e pouca capacidade para separar a esfera pessoal da profissional. Um gestor à portuguesa, hábil na arte do “desenrascanço”.
O segundo é que, apesar dessa forma de atuar, e tanto quanto se sabe até agora, nem a Judiciária, nem o Estado foram lesados de forma significativa. O grande dano foi reputacional: o mito da “superpolícia”, construído ao longo dos últimos anos com a ajuda de alguns aliados mediáticos, sofreu um abalo profundo. E quando os mitos se desfazem, sabemos que é no melhor pano que cai a nódoa.
Por fim, o terceiro motivo é o que mais ressoa junto da opinião pública. Luís Neves não vive num palácio, não conduz um topo de gama, nem possui uma herdade luxuosa no Alentejo. Quanto mais lhe apertam o cerco por causa da sua modesta casa de férias ou do carro em segunda mão que “confiscou” a um traficante, mais portugueses se interrogam sobre a proporcionalidade da polémica. E o Chega, que faz do combate à corrupção a sua grande bandeira, arrisca-se a ser percecionado como o partido que persegue os polícias que investigam os grandes casos de colarinho branco.
Naturalmente, a realidade é mais complexa, mas o arrastar da controvérsia tenderá a reforçar a perceção pública a favor de Luís Neves, não obstante a queda de popularidade do ministro nas sondagens. Sobretudo se, nos próximos meses, apresentar resultados visíveis em áreas como o combate aos fogos florestais, a segurança urbana e a imigração ilegal.
Luís Neves agiu mal, foi imprudente e revelou pouca capacidade para gerir críticas. Mostrou não ter ainda o tato, o bom senso e a carapaça política que um governante precisa. É o que sucede quando alguém com o seu perfil passa diretamente da PJ para o Governo. Mas isto pode não ser fatal, até porque em política não há mortos, há apenas feridos.
Para Montenegro, esta situação tem utilidade, até certo ponto. Enquanto o ministro da Administração Interna estiver no centro da tempestade - com a Comissão de Inquérito exigida pelo Chega – a ministra da Saúde passará debaixo do “radar”, numa altura em que se aproxima nova greve no INEM. O mesmo acontece com o ministro da Educação, ainda a recuperar do incidente dos exames. O facto de ninguém querer eleições agora também joga a favor de Luís Neves, tal como o sinal dado pelo primeiro‑ministro ao afirmar que não se demitiria se fosse constituído arguido no caso Spinumviva.
Porém, o Governo continua sob forte pressão e uma remodelação ministerial será inevitável para recuperar fôlego, numa fase em que as sondagens indicam algum desgaste. E a Administração Interna não será, certamente, a única pasta onde poderão ocorrer mudanças.