Depois da Feira

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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Que melhor programa para estes primeiros dias de junho que um percurso pela Feira do Livro, ao encontro da melhor poesia e da melhor literatura?

É certo que os livros de venda mais assegurada (dos “best sellers” aos curandeiros das almas) cada vez ganham mais espaço e relevo, o que torna um pouco menos fácil (mas de forma alguma impossível) encontrar o que de bom se escreve e publica no nosso país. Há muita coisa a ver, a ler, a reler, e mesmo se o que mais nos interessou este ano já o comprámos em livraria, vale a pena correr os pavilhões das editoras e os pavilhões dos alfarrabistas, pois sempre estará à nossa espera um livro sonhado ou uma inesperada descoberta.

Dediquemos, entretanto, um pensamento a Camões, como a data obriga. António Gonçalves, impressor, foi o editor da primeira edição dos Lusíadas, devidamente aprovada a sua publicação pela Santa Inquisição, com critérios que revelam suspeita abertura ao erotismo fervente de alguns episódios, o que não deixou de ser veementemente criticado poucos anos mais tarde por um pudibundo prelado de Coimbra, que todavia falhou no seu intento de proibir as escandalosas estrofes. Era assim a vida dos editores naqueles tempos, tal como aliás em tempos bem próximos do nosso e que para alguns são saudosos. No meu tempo de escola, essas estrofes eram simplesmente desaconselhadas, pelo que, naturalmente, eram as primeiras a ser lidas pela nossa curiosidade adolescente: o magnífico Canto Nono.

Como trabalharia o editor António Gonçalves? Sabemos que uma contrafação do livro foi imediatamente apresentada, com os pelicanos com o bico ao contrário (Rita Marnoto introduziu novas ideias sobre essa misteriosa rotação dos pelicanos). E sabemos mais que o êxito do poema em Espanha foi imediato e que o nosso poeta foi considerado “o príncipe dos poetas das Espanhas”, nos tempos da monarquia dual dos Filipes.

Mas aproveitemos a Feira para ir ao encontro de toda a poesia, quer da nossa língua, quer traduzida, que encontraremos um pouco atrás nas bancas das editoras, mas que lá estará presente, com as suas múltiplas vozes e composições. Os clássicos, sim, incluindo os mais esquecidos, mas também os mais recentes, os que ousaram “penetrar surdamente no reino das palavras” onde “estão os poemas que esperam ser escritos”, “sós e mudos, em estado de dicionário”, como dizia o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, e que assumiram enfrentar toda a grande poesia que os antecedeu. E também os ensaios, que despertam e desafiam a nossa reflexão, e as ficções, que nos vêm mostrar o mundo de outra maneira, através da criação de mundos possíveis.

Mais do que geral, a nossa língua é infinitamente particular, e não deve ter vergonha de se chamar português, como os americanos não têm vergonha de falar inglês e os canadianos do Québec não têm vergonha de falar francês. Os muitos falares do português contemporâneo e os mais que surjam no futuro só robustecem a nossa língua comum e partilhada, que não é geral, tem um nome de nascimento, um nome que vai guardando e arejando através das suas metamorfoses.

Fomos à Feira do Livro ao encontro da nossa língua. Encontrámos escritas várias e plurais, sós e mudas em estado de livro impresso, que esperam apenas que um leitor as venha acordar, palavras como belas adormecidas à espera do seu príncipe. O leitor é o príncipe das suas leituras. E a nossa experiência da vida e o nosso conhecimento do mundo estarão sempre incompletos e meio vazios sem esses encontros mágicos com a literatura, decisivos para a nossa formação.

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