Democracia, liderança e respeito: a legitimidade que sustenta o sistema

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

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A democracia não se esgota em regras, instituições ou eleições. Esses elementos são essenciais, mas insuficientes. O que verdadeiramente a sustenta é a percepção que as decisões que são tomadas em nosso nome são legitimas, mesmo quando não concordamos com elas.

Há uma distinção fundamental que importa tornar explícita. Por um lado, a legitimidade formal, que decorre das regras, dos procedimentos e da legalidade do exercício do poder. Por outro, a legitimidade percebida, que resulta da forma como os cidadãos reconhecem esse poder como justo e respeitador. A primeira garante o funcionamento do sistema. A segunda garante a sua sustentabilidade. E é precisamente aqui que muitas democracias começam a falhar, mesmo quando cumprem todas as formalidades.

Basta lembrar situações em que governos, eleitos de forma absolutamente legal, enfrentam protestos prolongados. Juridicamente legítimos, mas politicamente contestados, porque muitos cidadãos sentem que não foram ouvidos ou que decisões foram impostas sem transparência. Quando a perceção de justiça e respeito se perde, a legitimidade percebida entra em erosão, mesmo que a legitimidade formal permaneça intacta.

Num tempo marcado por polarização e radicalização, esta distinção torna-se central. A polarização não nasce apenas de divergências ideológicas. Alimenta-se de uma polarização afetiva, onde as pessoas de quem discordamos deixam de ser adversárias para passar a ser inimigas. É nesse espaço que a legitimidade percebida se constrói ou se destrói.

É também aqui que a liderança empática ganha relevância estratégica. Não como conceito vago, mas como competência política concreta. Liderar com empatia implica compreender interesses divergentes, reconhecer a legitimidade alheia e criar condições para que diferentes posições possam coexistir num quadro comum.

Não significa ceder em tudo. Significa ouvir antes de decidir, explicar depois de decidir e assumir a responsabilidade pelas escolhas.

Importa não confundir empatia com fraqueza. A liderança empática não exclui firmeza. Torna-a mais legítima. Em contextos de desinformação ou ataque às instituições, implica também traçar linhas claras.

Empatia não é ingenuidade. É compreender melhor para decidir melhor.

A ausência desta capacidade tem custos elevados. Quando os cidadãos deixam de se sentir respeitados, afastam-se. Quando deixam de se sentir ouvidos, radicalizam-se. Quando deixam de confiar, procuram alternativas fora do sistema. As democracias raramente colapsam de um dia para o outro. Desgastam-se por dentro, por erosão contínua da legitimidade percebida.

O respeito não é apenas uma atitude individual. É também uma prática institucional. Políticas públicas desenhadas sem consideração pelos impactos sociais e decisões tomadas sem transparência fragilizam a relação entre governantes e governados. A confiança não se pede. Constrói-se.

A democracia é, em última análise, um sistema de convivência entre diferentes. Não elimina conflitos, organiza-os. Sem reconhecimento mútuo, as instituições tornam-se cascas vazias. Num mundo mais incerto, a liderança empática deixa de ser desejável para se tornar necessária. A solidez das democracias dependerá tanto da sua arquitetura formal como do grau de legitimidade com que as pessoas a percebem.

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